Mostrando postagens com marcador Teoria do Verso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teoria do Verso. Mostrar todas as postagens

30.9.19

Poética

Carlo Carrà - Itália



Teoria do Verso II


Letrismo: Forma poética que se vale da manipulação espacial das letras entre si, produzindo  arranjos de sonoridades que rompem com o padrão de articulação. Não há compromisso com a formação de palavras que traduzam algum significado. Não há emprego de imagens ou idéias de qualquer espécie. Como no poema do alemão Christian Morgenstern, "O grande lalulá" ou do espanhol Juan Eduardo Cirlot, Visio smaragdina. A propósito de Cirlot, prometo um estudo mais aprofundado num artigo futuro.


O grande lalulá

Kroklouwafzi? Semememi!
Seiokrontro - prafriplo:
bifzi, bafzi; hulalemi
quasti basti lo...
Lalu lalu lalu la!

Hontraruru miromente
zasku zes ru ru?
Entepente, leiolente
Klekwapufzi lu?
Lalu lalu lalu la!

Simarar kos malzipempu
silzuzankunkrei (;)!
Marjomar dos: Quempu Lempu
Siri Suri Sei ()!
Lalu lalu lalu la!


Christian Morgenstern







Visio smaragdina


Visio smaragdina
Maresmer
maresmel vad
valma resdar
mares delmer

Deser verdal
vernal damer
adler es mar
verden lervad

Maresmer ver
desmeral dar
dar
ver
verd
verd smerald


Juan Eduardo Cirlot






29.9.19

Poética

"O filósofo e o poeta "Giorgio de Chirico 


Teoria do Verso I



ABC

O ABC é uma composição poética em que suas estrofes iniciam por letras que seguem a ordem alfabética. Muito frequente na literatura popular. É claro que a quase totalidade dos poetas adeptos a esta estrutura de verso costuma escolher umas poucas letras... Mas, Afonso Félix de Souza, um dos grandes nomes da nossa literatura contemporânea, em seu livro de poesias intitulado "O amoroso e a Terra" brinda o leitor com o alfabeto inteiro, incluindo o til e cedilha!

ABC do Garimpeiro

Ah, vida! Ah, vida sem graça!
Não ter terras, nem dinheiro.
Não ter mais, por mais que faça,
que trabalho o dia inteiro.

Bem sei que o céu que o céu cobre
é dos que aqui não têm sorte.
Mas coisa triste é ser pobre,
e pobre esperar a morte.

Cuidar, cuidei de ser rico,
mas feito um burro-de-carga.
Dor de lembrar … Até fico
como a beber água amarga.

Do acender do dia à noite,
fosse chuva, ou sol, ou vento,
era a canseira, era o aloite
por pouco mais que o sustento.

E fui pensar que era fácil
morar no meu próprio ninho,
com mulher que me cuidasse
e – quem sabe? – um pançudinho.

Flor do sertão … Quem queria
por achar mais do meu gosto,
casei com ela num dia
cinzento do mês de agosto.


Ganhei – mas quê? Nem dois anos
passaram … e há quem suporte?
Ah, vida! Ah, carga de enganos!
Vida mais dura que a morte.

Homem ter sonhos – e vê-los
rolarem todos na areia;
depois, queixas e atropelos
de mulher que ficou feia …

Isso não, que eu tinha peito
e era bamba no gatilho.
Quem vive mal dá um jeito.
Ah! deixei mulher e filho.

Já no ombro as coisas que eu tinha
(e era pouco mais que nada)
assim como uma andorinha
saí, saí pela estrada.

Léguas e léguas de mundo …
e sempre a lâmpada acesa
no meu peito, bem no fundo
dos suspiros por riqueza.

Mãos que escavam esperanças.
A quem apenas a pisa
que dá a terra? Ah, lembranças!
Ah, garimpos de Balisa!


Noites sem sono, em que abertos
meus olhos a cada instante
viam brilhar, sempre perto,
uma pedra de diamante.

Os sonhos entre cascalhos.
O revolver de mil nadas
na terra – em que ânsia de galhos!
E a dor das buscas baldadas.

Pobre de mim! Não ter onde
mais ir atrás do que ofusca
mesmo o sol, e mais se esconde
se mais queima quem o busca.

Quantas vezes vi brilhando
no chão a pedra que ardia
no meu peito! – E eis senão quando
um raio (e de onde?) fugia.

Raios de espera e de fogo
que vão e vêm feito o vento,
qual milhões de caga-fogos
no escuro do pensamento.

Sempre a querer, sempre a sede
de que me desse o garimpo
ao corpo – a vida na rede,
e à alma – o céu sempre limpo.

Talvez, se não desistisse …
Talvez com mais alguns meses …
Talvez a sorte sorrisse.
Talvez … e quantos talvezes!

Último sol que se deita …
Último sonho de lava
queimando o chão, que a maleita
em febre já me acabava.

Voltar … Mas, ir para casa?
Ah, não, que tinha vergonha.
Ah, vida, por que pões asa
no sonho e não em quem sonha?

Xadrez nem nada me prende.
Sem destino o mundo corro.
Mas um fogo em mim se acende,
e a buscá-lo sei que morro.

Zanzar assim sem ter onde.
Morrer – e nem sepultura.
E a sorte, como se esconde
se dá sonho ao que a procura.

   O til é letra esquecida,
   mas o não ela é que cobre.
   E de nãos se cobre a vida
   de quem sonha e nasceu pobre.


Afonso Félix de Sousa