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30.9.19

Poética

Carlo Carrà - Itália



Teoria do Verso II


Letrismo: Forma poética que se vale da manipulação espacial das letras entre si, produzindo  arranjos de sonoridades que rompem com o padrão de articulação. Não há compromisso com a formação de palavras que traduzam algum significado. Não há emprego de imagens ou idéias de qualquer espécie. Como no poema do alemão Christian Morgenstern, "O grande lalulá" ou do espanhol Juan Eduardo Cirlot, Visio smaragdina. A propósito de Cirlot, prometo um estudo mais aprofundado num artigo futuro.


O grande lalulá

Kroklouwafzi? Semememi!
Seiokrontro - prafriplo:
bifzi, bafzi; hulalemi
quasti basti lo...
Lalu lalu lalu la!

Hontraruru miromente
zasku zes ru ru?
Entepente, leiolente
Klekwapufzi lu?
Lalu lalu lalu la!

Simarar kos malzipempu
silzuzankunkrei (;)!
Marjomar dos: Quempu Lempu
Siri Suri Sei ()!
Lalu lalu lalu la!


Christian Morgenstern







Visio smaragdina


Visio smaragdina
Maresmer
maresmel vad
valma resdar
mares delmer

Deser verdal
vernal damer
adler es mar
verden lervad

Maresmer ver
desmeral dar
dar
ver
verd
verd smerald


Juan Eduardo Cirlot






26.5.13

Conto de Clarice Lispector - Felicidade Clandestina


Clarice Lispector
Clarice Lispector - Giorgio de Chirico



Matando baratas com Clarice - histórias de Felicidade Clandestina 


A QUINTA HISTÓRIA

Esta história poderia chamar-se "As Estátuas". Outro nome possível é "O Assassinato". E também "Como Matar Baratas". Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, "Como Matar Baratas", começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz. Morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se "O Assassinato". Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranqüila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.

A terceira história que ora se inicia é a das "Estátuas". Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras - subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! - essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: "é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de..." - de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.

A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila-indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha  seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: "Esta casa foi dedetizada".

A quinta história chama-se "Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia". Começa assim: queixei-me de barata

12.4.13

Galeria




"baby", 2006, óleo sobre linho




Entre o surrealismo e o fantástico, entre o macabro e o grotesco, as pinturas de Fulvia Zambon


A artista plástica italiana Fulvia Zambon nasceu em Turim e vive em Nova Yorque. Suas obras surrealistas tratam de cenas "cruas", beiram o grotesco, chocam o espectador. Alguns quadros lembram a dor e o fantástico da mexicana Frida Kallo.


"Eu retrato um mundo onde a carrinhos de bebê são veículo, casa e abrigo para estas estranhas jovens criaturas, alguns deles com membros amputados ou voando por um céu improvável"  (I depict a world where Baby-Carriages are a vehicle, home and shelter for strange young creature, some of them with missing limbs or flying in improbably sky)                               Fulvia Zambon





"baby", 2006, óleo sobre linho





"baby", 2006, óleo sobre linho





"pequena vida" (velório), 1999, óleo sobre linho




"canção para uma criança", 1996, óleo sobre linho




"caldo de galinha",1998, óleo sobre linho




"a rainha", 1997, óleo sobre tela








4.3.13

Galeria



ilusão de ótica
"auto-retrato" Oleg Shuplyak

O artista ucraniano Oleg Shuplyak, mestre da ilusão de ótica, brinca com os mestres Monet, Van Gogh, Renoir...



Олег Шупляк ou Oleg Shuplyak,  nasceu em Berezhany, pequena aldeia de Ternopil, Ucrânia, em 1967.  Arquiteto por formação, Oleg Shuplyak dedicou-se ao ensino da arte e à restauração, ao mesmo tempo em que participava de exposições em Kiev, Ternopil, Lviv, Ivano-Frankivsk, Lutsk, Khmelnytsky, Notthingham. Hoje é conhecido no mundo todo como o mestre do ilusionismo. É membro da União dos Artistas da Ucrânia e sua obra transita pelo pós-modernismo, abstracionismo e principalmente o surrealismo. Além disso, ele também faz  fotografia. 



ilusão de ótica
"Shevchenko"  (expoente da literatura ucraniana ) Oleg Shuplyak



ilusão de ótica
"Newton" Oleg Shuplyak



ilusão de ótica
"Van Gogh" Oleg Shuplyak


ilusão de ótica
"Monet" Oleg Shuplyak



ilusão de ótica
"Renoir" Oleg Shuplyak



ilusão de ótica
"Stalingrado" Oleg Shuplyak