25.4.13

Conto de Balzac - A obra-prima





Le Chef d’œuvre - A obra-prima ignorada de Honoré de Balzac


Este conto faz parte da Comédia Humana e exerceu verdadeira fascinação entre os artistas. Picasso, além de trabalhar nas ilustrações da edição de 1927, chegou a instalar-se no prédio que supostamente serviu de cenário para a história de Balzac. Neste prédio pintaria Guernica, sua própria obra-prima. Mudemo-nos, então, para a "rue des Grands-Augustins", em Paris:


I
GILLETTE

Em fins de 1612, numa fria manhã de dezembro, um rapaz, cujo vestuário era de modesta aparência, passeava em frente à porta de uma casa situada na rue des Grands Augustiniens, em Paris. Depois de por muito tempo caminhar por aquela rua com a irresolução de um amante que não ousa apresentar-se em casa da sua primeira conquista, por mais fácil que ela tivesse sido, acabou por transpor o umbral daquela porta e perguntou se mestre Francisco Porbus estava em casa. Ante a resposta afirmativa que lhe foi dada por uma velha entretida em varrer uma sala baixa, o jovem subiu agilmente os degraus, detendo-se em cada um deles como um cortesão noviço, inquieto pelo acolhimento que lhe faria o rei. Quando chegou ao alto da escadaria de caracol, ficou um momento no patamar, hesitando se usaria ou não a grotesca aldrava que ornamentava a porta da oficina onde devia trabalhar o pintor de Henrique IV, ao qual Maria de Médicis preferiu Rubens. O rapaz experimentava essa sensação profunda que deve ter feito vibrar o coração dos grandes artistas quando, em pleno zênite da mocidade e do amor pela arte, enfrentaram um homem de gênio ou alguma obra-prima. Existe em todos os sentimentos humanos uma flor primitiva, engendrada por um nobre entusiasmo que vai continuamente enfraquecendo até que a felicidade não seja mais do que uma lembrança e a glória uma mentira. Por entre essas frágeis emoções, nada se assemelha tanto ao amor como a juvenil paixão de um artista que inicia o delicioso suplício de seu destino de glória e de infortúnio, paixão cheia de audácia e de timidez, de crenças vagas e de desânimos positivos. Ao artista que, de poucos haveres, que, adolescente de gênio, não palpitou vivamente ao apresentar-se diante de um mestre, sempre faltará uma corda no coração, não sei que pincelada, que sentimento na obra, que indefinível expressão de poesia. Se alguns fanfarrões, cheios de si, crêem muito cedo no futuro, esses serão homens de espírito somente para os néscios. A ser assim, o jovem desconhecido parecia ter verdadeiro merecimento, se é que o talento deve medir-se por essa timidez inicial, por esse pudor indefinível que os que são destinados à glória sabem perder no exercício de sua arte, como as mulheres bonitas perdem o seu nos manejos da faceirice. O hábito do triunfo apequena a dúvida, e o pudor é talvez uma dúvida.
Deprimido pela miséria e surpreendido naquele momento por sua petulância, o pobre neófito não teria entrado em casa do pintor a quem devemos o admirável retrato de Henrique IV, sem um auxílio extraordinário que o acaso lhe proporcionou. Um ancião vinha subindo a escada. Pela singularidade do seu traje, pela magnificência de seu cabeção de renda, pela preponderante calma do seu andar, o rapaz adivinhou ser aquele personagem um protetor, ou amigo do pintor; recuou no patamar para dar-lhe lugar e examinou-o com curiosidade, na esperança de achar nele a boa índole de um artista ou o caráter serviçal das pessoas que amam a arte; mas naquele rosto divisou alguma coisa de diabólico, e, sobretudo, esse não sei que que tanto atrai os artistas. Imaginem uma fronte calva, abaulada, proeminente, projetando-se saliente sobre um nariz pequeno e chato, arrebitado na ponta como o de Rabelais ou o de Sócrates; uma boca risonha e enrugada, um queixo curto, orgulhosamente erguido, tapado por uma barba grisalha, aparada em ponta, olhos verde-mar embaciados na aparência pela idade, mas que, pelo contraste do branco nacarado em que a pupila flutuava, deviam por vezes despedir olhares magnéticos no paroxismo da cólera ou do entusiasmo. O rosto, aliás, estava singularmente emurchecido pelas fadigas da idade e, mais ainda, por esses pensamentos que corroem igualmente a alma e o corpo. Os olhos não tinham mais cílios, e mal se viam vestígios de sobrancelhas por sobre as arcadas salientes. Ponham essa cabeça num corpo franzino e débil, cerquem-na de uma renda de deslumbrante alvura e perfurada como uma colher para peixe, atirem sobre o gibão preto do ancião uma pesada corrente de ouro e terão uma imagem imperfeita desse personagem, ao qual a escassa luz da escada acrescentava ainda uma cor fantástica. Dir-se-ia uma tela de Rembrandt caminhando silenciosamente, e sem o quadro, na escura atmosfera de que o grande pintor se apropriou. O ancião dirigiu ao rapaz um olhar repassado de sagacidade, bateu três pancadas na porta e disse a um homem valetudinário, de cerca de quarenta anos, que veio abrir:
- Bom dia, mestre.
Porbus inclinou-se respeito- samente; deixou o rapaz entrar, por julgá-lo trazido pelo ancião, e preocupou-se tanto menos com ele, por ter o neófito permanecido sob o encantamento que devem experimentar os pintores de vocação ante o aspecto do primeiro ateliê que vêem e onde se lhes revelam alguns dos processos materiais da arte. Uma clarabóia existente no teto iluminava o ateliê de Porbus. Concentrada sobre uma tela colocada no cavalete e que não fora ainda tocada senão por três ou quatros traços brancos, a luz não alcançava as negras profundezas dos cantos daquela vasta peça; entretanto, alguns reflexos perdidos faziam brilhar naquela sombra pardacenta uma paleta prateada no ventre de uma couraça de retre suspensa na parede, listavam com um brusco sulco de luz a cornija esculpida e encerada de um antigo aparador coberto de louças curiosas ou pontilhavam de pingos brilhantes o tecido granuloso de alguns velhos reposteiros de brocado dourado, de grandes pregas desfeitas, atirados ali como modelos. Manequins de gesso, fragmentos e bustos de deusas antigas, amorosamente polidas pelos beijos dos séculos, enchiam as mesinhas e os consolos. Numerosos esboços, estudos a lápis, a três cores, sanguíneos ou feitos a pena, cobriam as paredes até o teto. Caixas de tintas, garrafas de óleo e de essência, escabelos caídos não deixavam senão um caminho estreito para chegar embaixo da auréola projetada pela clarabóia, cujos raios caíam em cheio no pálido semblante de Porbus e sobre o crânio de marfim do homem singular. A atenção do rapaz foi logo exclusivamente solicitada por um quadro que, naquele tempo de motins e de revoluções, já se tornara célebre, e que era visitado por alguns desses teimosos aos quais se deve a conservação do fogo sagrado durante os dias maus. 
Aquela bela página representava uma Maria Egipcíaca que se dispunha a pagar a passagem da barca. Essa obra-prima, destinada a Maria de Médicis, foi por ela vendida nos dias de sua miséria.
- Tua santa me agrada disse o ancião a Porbus - e eu te daria por ela dez escudos de ouro acima do preço que a rainha oferece; mas competir com ela... é o diabo!
- Acha-a bem?
- Hum! hum! fez o ancião - bem?... sim e não. Essa tua mulherzinha não está mal-arranjada, mas não tem vida. Vocês pensam ter feito tudo quando desenharam corretamente uma figura e puseram corretamente cada coisa em seu lugar segundo as leis da anatomia! Vocês cobrem esse esboço com tonalidades de carne de antemão preparadas na paleta, tendo o cuidado de manter um dos lados mais sombrio do que o outro, e, como olham de quando em quando uma mulher nua que se conserva de pé em cima de uma mesa, julgam ter copiado a natureza; imaginam que são pintores e que roubaram o segredo de Deus!... Prrr! Não basta para ser um grande poeta conhecer a fundo a sintaxe e não cometer erros de linguagem! Olha tua santa, Porbus! À primeira vista ela parece admirável; mas a um segundo exame vê-se que está colada no fundo da tela e que não seria possível dar uma volta em torno do seu corpo. É uma silhueta que só tem uma face, é uma aparência recortada, uma imagem incapaz de se virar, de mudar de posição. Não sinto ar entre esse braço e o fundo do quadro; faltam espaço e profundidade: entretanto, em perspectiva tudo está bem e a degradação aérea está exatamente observada; mas, apesar de tão louváveis esforços, eu não poderia crer que esse belo corpo esteja animado pelo morno sopro da vida. Parece-me que, se eu colocasse a mão naquele colo de carnes firmes e harmoniosas, eu o acharia frio como mármore. Não, meu amigo, o sangue não corre por baixo daquela pele de marfim, a vida não intumesce com seu orvalho purpúreo as veias e as fibrilas que se entrelaçam em redes sob a transparência de âmbar das têmporas e do peito. Este lugar palpita, mas aquele outro está imóvel, em cada pormenor a vida e a morte lutam: aqui é uma mulher, ali é uma estátua, mais além é um cadáver. Tua criação é incompleta. Não pudeste transmitir senão uma parte de tua alma à tua obra querida. O facho de Prometeu mais de uma vez se apagou nas tuas mãos e muitos lugares do teu quadro não foram tocados pela chama celeste.
- Mas por quê, meu caro mestre? - disse respeitosamente Porbus ao ancião, enquanto o rapaz dificilmente reprimia um forte desejo de sová-lo.
- Ah! aí está! - respondeu o velhinho. - Flutuaste indeciso entre os dois sistemas, entre o desenho e a cor, entre a fleuma minuciosa, a rigidez precisa dos velhos mestres alemães e o ardor deslumbrante, a feliz abundância dos pintores italianos. Quiseste imitar ao mesmo tempo Hans Holbein e Ticiano, Albrecht Dürer e Paolo Veronese. Evidentemente, era isso uma ambição magnífica! Mas que aconteceu? Não alcançaste nem a sedução severa da secura nem as decepcionantes magias do claro-escuro. Neste lugar, como um bronze em fusão que arrebenta seu molde fraco demais, a rica e loura cor do Ticiano fez romper-se o magro contorno de Albrecht Dürer, em que o tinhas moldado. Além, o desenho resistiu aos magníficos transbordamentos da paleta veneziana e os conteve. Tua figura não está nem perfeitamente desenhada nem perfeitamente pintada, e mostra em toda parte os vestígios dessa infeliz indecisão. Se não te sentias suficien- temente forte para fundir juntos ao fogo do teu gênio as duas maneiras rivais, devias ter optado francamente por uma ou outra, a fim de obter a unidade que simula uma das condições da vida. Tu não és verdadeiro senão nos centros, teus contornos são falsos, não se envolvem e nada prometem por detrás. Aqui há verdade - disse o ancião, mostrando o peito da santa. - E também aqui - continuou ele indicando o ponto em que, no quadro, terminava o ombro. - Mas ali - acrescentou, voltando ao centro do colo - tudo é falso. Não analisemos nada, que isso seria desesperar-te.
O ancião sentou-se numa banqueta, segurou a cabeça com as mãos e ficou calado.
Mestre - disse-lhe Porbus -, entretanto estudei bem o nu deste colo; mas, por infelicidade nossa, existem efeitos verdadeiros na natu- reza que na tela não são mais prováveis...
- A missão da arte não é copiar a natureza e sim exprimi-la! Não és um vil copista, e sim um poeta! - exclamou vivamente o ancião, inter- rompendo Porbus com um gesto despótico. - De outra forma, um escul- tor estaria quite com todos os seus trabalhos modelando uma mulher! Pois bem, experimenta modelar a mão de tua amante e a colocar diante de ti; depararás com um horrível cadáver, sem nenhuma parecença, e serás forçado a ir em busca do escopro do homem que, sem copiá-la exatamente, nela representará o movimento e a vida. Temos de apreender o espírito, a alma, a fisionomia das coisas e dos seres. Os efeitos! os efeitos! mas se eles são os acidentes da vida e não a vida! Uma mão, já que recorri a esse exemplo, uma mão não está unicamente presa ao corpo, ela exprime e continua um pensamento que é preciso apreender e reproduzir. Nem o pintor nem o poeta nem o escultor devem separar o efeito da causa, que invencivelmente estão um no outro. A verdadeira luta está aí! Muitos pintores triunfam instinti- vamente sem conhecer esse tema da arte. Vocês desenham uma mulher, mas não a vêem! Não é assim que se consegue forçar o arcano da natureza. As mãos de vocês reproduzem, sem que se dêem conta, o modelo que copiaram na oficina do mestre. Vocês não descem suficientemente na intimidade da forma, não a perseguem com suficiente amor e perseverança nos seus desvios e nas suas fugas. A beleza é uma coisa severa e difícil que não se deixa alcançar à vontade, é preciso esperar suas horas, espioná-la, acossá-la e enlaçá-la firmemente para obrigá-la render-se. A Forma é um Proteu muito mais inatingível e mais fértil em sinuosidades do que o Proteu da Fábula; não é senão depois de demorados combates que se pode constrangê-la a mostrar-se sob seu verdadeiro aspecto. Vocês contentam-se com a primeira aparência que ela lhes entrega, ou quando muito com a segunda, ou com a terceira; não é assim que procedem os lutadores vitoriosos! Esses pintores jamais vencidos não se deixam ludibriar por esses mais-ou-menos, perseveram até que a natureza se veja reduzida a mostrar-se inteiramente nua, e no seu verdadeiro espírito. Assim procedeu Rafael - disse o ancião, tirando seu boné de veludo preto para exprimir o respeito que lhe inspirava o rei da arte -, sua grande superioridade provém do sentido íntimo que, nele, parece querer despedaçar a forma. A forma, nas suas figuras, é o mesmo que entre nós, um intérprete para comunicar idéias, sensações, uma vasta poesia. Toda imagem é um mundo, um retrato cujo modelo surgiu numa visão sublime, colorido de luz, designado por uma voz interior, despido por um dedo celestial que mostrou, no passado de toda uma vida, as fontes da expressão. Vocês fazem nas suas mulheres belos vestidos de carne, belos cortinados de cabelos, mas onde o sangue que engendra a calma ou a paixão e que causa efeitos particulares? Tua santa é uma mulher morena, mas isto aqui, meu pobre Porbus, é de uma loura! As figuras de vocês são então pálidos fantasmas coloridos que vocês nos passeiam diante dos olhos, e chamam a isso pintura e arte! Pelo fato de terem feito alguma coisa que se assemelha mais a uma mulher do que a uma casa, vocês pensam ter alcançado o alvo, e, muito ufanos por não serem mais obrigados a escrever ao lado de suas figuras, currus venustus ou pulcher homo, como os primeiros pintores, vocês julgam ser artistas maravilhosos! Ah! ah! ainda não alcançaram o alvo, meus denodados companheiros; terão ainda de gastar muitos lápis, borrar muitas telas antes de tal conseguir! Não há dúvida de que uma mulher traz a cabeça desse modo, ela segura a saia assim, seus olhos se enlanguescem e se fundem nesse ar de doçura resignada, a sombra palpitante dos cílios flutua desse modo sobre as faces! É isso e não é isso. Que falta, pois? um nada, mas esse nada é tudo. Vocês dão a aparência da vida mas não exprimem seu excesso que transborda, esse não sei que que é a alma, talvez, e que flutua nebulosamente sobre o invólucro; enfim, essa flor de vida que Ticiano e Rafael surpreenderam. Partindo-se do ponto extremo a que vocês chegaram, far-se-ia, talvez, excelente pintura;
mas vocês se cansam muito depressa. O vulgo admira, mas o verdadeiro conhecedor sorri. Ó Mabuse, ó meu mestre - acrescentou aquele singular personagem -, és um ladrão, levaste a vida contigo! Feitas essas restrições - prosseguiu -, esta tela vale mais do que as pinturas desse mariola de Rubens, com as suas montanhas de carnes flamengas, polvilhadas de vermelhão, com suas bátegas de cabeleiras castanhas e sua orgia de cores. Pelo menos você tem aí cor, sentimento e desenho, as três partes essenciais da arte.
- Mas essa santa é sublime, velhote! - exclamou o rapaz com voz forte, ao sair de demorado devaneio. - Essas duas figuras, a da santa e a do barqueiro, têm uma finura de intenção que os pintores italianos ignoravam; não conheço um único que tivesse inventado a indecisão do barqueiro.
- Esse maroto é seu? - perguntou Porbus ao ancião.
- Ai de mim! mestre, perdoe o meu atrevimento - respondeu o neófito, corando. - Sou desconhecido, um pintamonos instintivo, e chegado faz pouco a esta cidade, fonte de toda ciência.
- Mãos à obra! - retrucou-lhe Porbus apresentando-lhe um lápis vermelho e uma folha de papel.
O desconhecido copiou celeremente a Maria em poucos traços.
- Oh! oh! - exclamou o ancião. - Como se chama?
O rapaz escreveu por baixo: Nicolas Poussin.
- Eis aqui algo que não está mal para um principiante - afirmou a singular personagem que tão aloucadarnente discorria. - Vejo que se pode falar em pintura diante de ti. Não te censuro por teres admirado a santa de Porbus. Para todos é uma obra-prima, e somente os iniciados nos mais profundos arcanos da arte podem descobrir no que ela peca. Uma vez, porém, que és digno da lição e capaz de compreender, vou fazer-te ver o pouco que seria preciso para completar a obra. Abre bem os olhos e presta toda a atenção, pois semelhante ocasião de te instruíres não tornará jamais, talvez, a se apresentar. Tua paleta, Porbus!
Porbus foi buscar a paleta e os pincéis. O velhinho arregaçou as mangas com um gesto de rudeza convulsa, passou o polegar na paleta matizada e cheia das tintas que Porbus lhe oferecia; arrancou-lhe das mãos, mais do que o recebeu, um punhado de pincéis de todos os tamanhos, e sua barba, aparada em ponta, moveu-se subitamente por esforços ameaçadores que exprimiam o prurido de uma apaixonada fantasia. Ao mesmo tempo que enchia o pincel de tinta, resmungava entre dentes:
"Estas cores só prestam para ser atiradas pela janela, junto com o que as misturou: são de uma crueza e de uma falsidade revoltantes! Como se poderá pintar com isso?"
Molhava depois com febril vivacidade a ponta do pincel nas várias cores, das quais percorria por vezes toda a escala mais rapidamente do que um organista de catedral percorre a extensão de seu teclado no O filii da Páscoa.
Porbus e Poussin permaneciam imóveis, cada um deles a um lado da tela, mergulhados na mais veemente contemplação.
- Vês, rapaz - ia dizendo o velho, sem se voltar -, vês como por meio de três ou quatro pinceladas e de uns toques azulados se podia fazer o ar circular à roda da cabeça desta pobre santa, que devia estar sufocada e sentir-se presa nessa atmosfera densa! Olha como esta fazenda revoluteia agora e como se compreende que a brisa a soergue! Antes tinha o aspecto de uma tela engomada e presa com alfinetes. Estás notando como o brilho acetinado que acabo de depor no peito reproduz bem a fofa flexibilidade de uma pele de moça, e como o tom misturado de pardo-avermelhado e de ocre calcinado aquece a grísea frieza desta grande sombra na qual o sangue se coagulava em vez de circular? Rapaz, rapaz, o que aqui te estou mostrando nenhum mestre poderia ensinar-te. Somente Mabuse possuía o segredo de dar vida às figuras. Mabuse teve somente um discípulo, e esse sou eu. Eu não tive nenhum, e estou velho!
Tens suficiente inteligência para adivinhar o resto, por isto que te estou deixando entrever.
Ao mesmo tempo que falava, o estranho ancião tocava em todos os pontos do quadro: aqui duas pinceladas, ali uma única, mas sempre tão a propósito que se diria uma nova pintura, mas uma pintura banhada de luz. Trabalhava com um ardor tão apaixonado que o suor gotejou na sua fronte calva; ia tão rapidamente com pequenos movimentos tão impaci- entes, tão entrecortados que, para o jovem Poussin, parecia haver no corpo daquela singular personagem um demônio que atuava por suas mãos, tomando-as fantasticamente contra a vontade do homem. O brilho sobrenatural de seus olhos, as convulsões que pareciam o efeito de uma resistência davam àquela idéia um simulacro de verdade que devia atuar sobre uma imaginação moça. O ancião continuava dizendo:
- Paf! paf! paf! eis aqui como isto se lambuza, rapaz! Venham, minhas pinceladinhas, façam-me crestar este tom glacial! Vamos! Pon! pon! pon! - murmurava, dando calor às partes onde se assinalara uma falta de vida, fazendo desaparecer por meio de algumas placas de tinta as diferenças de temperamento, e restabelecendo a uniformidade de tom exigida por uma ardente egípcia.
- Vês, meu filho, o que vale é a última pincelada. Porbus deu cem; eu dou uma somente. Ninguém nos agradece o que está embaixo. Fique sabendo isso bem!
Finalmente, aquele demônio se deteve, e, virando-se para o Porbus e Poussin, mudos de admiração, disse-lhes:
- Isto não vale ainda a minhaBelle Noiseuse; entretanto, podia-se assinar o nome ao pé de semelhante obra. Sim, eu a assinaria - acrescentou, erguendo-se para pegar um espelho, no qual olhou-a. - Agora, vamos almoçar - disse ele. - Venham os dois à minha casa. Tenho presunto defumado e bom vinho!... Eh! eh! apesar dos tempos desgraçados, falaremos de pintura! Somos de força... Aqui está um homenzinho - acrescentou, dando uma palmada no ombro de Nicolas Poussin - que tem facilidades.
Ao ver então o casaco ordinário do normando, tirou do cinturão uma bolsa de couro, meteu os dedos nela, de lá trouxe duas moedas de ouro e, mostrando-lhas:
- Compro o teu desenho disse ele.
- Aceita - aconselhou Porbus a Poussin, ao vê-lo estremecer e corar de vergonha, porquanto o jovem adepto tinha o orgulho do pobre. - Aceita de uma vez, pois que na sua sacola ele tem o resgate de dois reis.
Os três desceram a escada da oficina e caminharam charlando a respeito de arte, até chegarem a uma bela casa de madeira situada perto da ponte de São Miguel, e cujos ornamentos, a aldraba, os caixilhos das janelas, os arabescos, maravilharam Poussin. O aspirante a pintor viu-se repentinamente numa sala baixa, diante de um bom fogo, junto a uma mesa servida de manjares apetitosos, e, por uma felicidade inaudita, na companhia de dois grandes artistas cheios de bonomia.
- Jovem - disse-lhe Porbus, ao vê-lo pasmado em frente a um quadro -, não olhe muito essa tela, pois ficaria desesperado.
Era o Adam, que Mabuse fez para sair da prisão na qual seus credores o retiveram durante muito tempo. Aquela figura apresentava, efetivamente, um tal poder de realidade que Nicolas Poussin começou, desde aquele momento, a compreender o verdadeiro sentido das confusas palavras do ancião. Este contemplava o quadro com ar satisfeito, mas sem entusiasmo, parecendo dizer: ''Fiz coisa melhor!''
- Há vida aí - comentou -; meu pobre mestre sobrepujou-se; falta, porém, ainda um pouco de verdade no fundo da tela. O homem está bem vivo, vai levantar-se e dirigir-se para nós. Mas o ar, o céu, o vento que respiramos, vemos e sentimos não estão aí. Ademais, não há aí mais do que um homem! Ora, o único homem saído diretamente das mãos de Deus devia ter algo de divino, que falta. O próprio Mabuse, quando não estava ébrio, dizia isso cheio de despeito.
Poussin olhava alternativa- mente para o ancião e para Porbus com uma curiosidade inquieta. Aproximou-se deste como para perguntar-lhe o nome do anfitrião; o pintor, porém, pôs um dedo nos lábios com ar de mistério, e o rapaz, vivamente interessado, calou-se, esperando que cedo ou tarde alguma palavra lhe permitiria adivinhar o nome do seu hospedeiro, cuja riqueza e talentos eram suficientemente atestados pelo respeito que Porbus lhe testemunhava e pelas maravilhas acumuladas naquela sala.
Poussin, ao ver no sombrio forro de madeira de carvalho um magnífico retrato de mulher, exclamou:
- Que belo Giorgione!
- Não - replicou o ancião -, está vendo uma das minhas primeiras lambuzadas.
- Demônios! estou então em casa do deus da pintura! - disse ingenuamente Poussin.
O ancião sorriu como um homem habituado de há muito a esse elogio.
- Mestre Frenhofer! - disse Porbus - não quererá mandar buscar um pouco do seu bom vinho do Reno para mim?
- Duas pipas! - respondeu o ancião. - Uma para pagar o prazer que tive esta manhã ao ver tua linda pecadora e a outra como um presente de amizade.
- Ah! se eu não estivesse sempre doente - respondeu Porbus - e se quisesse deixar-me ver sua Belle Noiseuse, eu poderia fazer alguma pintura elevada, vasta e profunda, na qual as figuras seriam de tamanho natural.
- Mostrar minha obra! - disse o ancião, emocionado. - Não! não! preciso aperfeiçoá-la ainda. Ontem, ao entardecer, pensei tê-la terminado. Os olhos dela pareciam-me úmidos, sua carne estava agitada. As tranças dos seus cabelos moviam-se. Ela respirava! Embora eu tenha achado o meio de realizar numa tela chata o relevo e as rotundidades da natureza, hoje de manhã, à luz, reconheci meu erro. Ah! para chegar a esse resultado glorioso, estudei a fundo os grandes mestres do colorido, analisei e ergui camada por camada os quadros do Ticiano, esse rei da luz; como esse pintor soberano, esbocei minha figura num tom claro com uma pasta flexível e abundante, porque a sombra nada mais é do que um acidente, guarda isso, garoto! Depois voltei à minha obra e, por meio de meias-tintas e de cores claras e translúcidas cuja transparência eu ia diminuindo gradualmente, reproduzi as mais vigorosas sombras e até os mais rebuscados negros; porquanto as sombras dos pintores comuns são de outra natureza que os seus tons claros; é madeira, é bronze, e tudo que quiserem, menos carne na sombra. Sente-se que, se as figuras deles mudassem de posição, os lugares sombreados não se clareariam e não se tornariam luminosos. Evitei esse erro, no qual muitos dos mais ilustres caíram, e em mim a alvura se realça sob a opacidade da mais firme sombra. Não fiz como uma porção de ignorantes que pensam desenhar corretamente porque fazem um traço cuidadosamente nítido; não, eu não assinalei secamente as bordas exteriores da minha figura e não fiz ressaltar até a menor minúcia anatômica, porque o corpo humano não acaba por linhas. Nisso, os escultores podem aproximar-se mais da verdade do que nós. A natureza comporta uma série de curvas que se envolvem umas nas outras. Rigorosamente falando, o desenho não existe! Não se ria, rapaz! Por mais estranha que lhe pareça essa afirmação, algum dia você lhe compreenderá as razões. A linha é o meio pelo qual o homem se dá conta do efeito da luz sobre os objetos; mas na natureza, onde tudo é cheio, não há linhas: é modelando que se desenha, isto é, que se destacam as coisas do meio em que elas se acham: é somente a distribuição da luz que dá aparência ao corpo! Por isso não fixei os traços, espalhei sobre os contornos uma nuvem de meias-tintas louras e quentes que faz com que não se possa com precisão colocar o dedo no lugar em que eles se confundem com o fundo. De perto, esse trabalho parece nebuloso e como que falto de precisão; mas a dois passos tudo se afirma, se detém, se destaca; o corpo gira, as formas tornam-se salientes, sente-se o ar circular em torno. Entretanto, ainda não estou satisfeito, tenho dúvidas. Seria preciso talvez não desenhar um único traço, talvez fosse preferível começar uma figura pelo meio, dedicando-se primeiro às saliências mais iluminadas, para passar depois às porções mais sombrias. Não é assim que faz o sol, esse divino pintor do universo? Ó natureza! natureza! quem jamais te surpreendeu nas tuas fugas! Olhem, o excesso de ciência, do mesmo modo que a ignorância, leva a uma negação. Não tenho confiança na minha obra!
O ancião fez uma pausa, depois prosseguiu:
- Faz dez anos, meu rapaz, que trabalho; mas o que são dez minguados anos quando se trata de tirar com a natureza? Ignoramos o tempo que o senhor Pigmalião empregou para fazer a única estatua que caminhou!
O ancião mergulhou em profunda meditação e permaneceu de olhos fixos, brincando maquinalmente com uma faca.
- Ei-lo em conversação com o seu espírito! - disse Porbus em voz baixa.
Ao ouvir tais palavras, Nicolas Poussin sentiu-se sob a influência de uma inexplicável curiosidade de artista. Aquele ancião de olhos brancos, atento e estúpido, que se tornara para ele mais do que um homem, afigurou-se-lhe um gênio fantástico que vivesse numa esfera desconhecida. Ele despertava-lhe mil idéias confusas na alma. O fenômeno moral dessa espécie de fascinação não pode ser definido, tanto quanto não o pode ser a emoção provocada por uma canção que lembre a pátria no coração de um exilado. O desprezo que aquele homem velho afetava manifestar pelas mais belas tentativas da arte, sua riqueza, suas maneiras, a deferência de Porbus por ele, aquela obra por tanto tempo mantida em segredo, obra de paciência, sem dúvida uma obra de gênio, se se devia julgar pela cabeça da Virgem que o jovem Poussin tão francamente admirara e que, bela ainda, mesmo ante o Adam de Mabuse, atestava a imperial feitura de um dos príncipes da arte: tudo naquele ancião ultrapassava os limites da natureza humana. O que a rica imaginação de Nicolas Poussin pôde apreender de claro e de perceptível ao ver aquela criatura sobrenatural foi uma imagem completa da natureza artística, dessa aloucada natureza à qual são confiados tantos poderes e que com demasiada freqüência deles abusa, arrastando a fria razão, os burgueses e mesmo alguns amadores através de mil estradas pedregosas onde, para eles, nada há; ao passo que, brincalhona nas suas fantasias, essa rapariga de asas brancas ali descobre epopéias, castelos, obras de arte. Natureza zombeteira e boa, fecunda e pobre! Assim, pois, para o entusiasta Poussin, aquele ancião tornara-se, por uma súbita transfiguração, a própria Arte, a arte com os seus segredos, seus ardores e seus devaneios.
- Sim, meu caro Porbus - volveu Frenhofer -, faltou-me até agora encontrar uma mulher irrepreensível, um corpo cujos contor-nos sejam de uma beleza perfeita e cuja carnação... Mas - continuou ele, após uma pausa - onde viverá essa Vênus dos antigos, impossível de achar, tantas vezes procurada e da qual encontramos apenas algumas belezas esparsas? Oh! para ver um momento, uma única vez, a natureza divina, completa, o ideal enfim, eu daria toda a minha fortuna... Mas irei procurar-te nos teus limbos, beleza celestial! Como Orfeu, descerei ao inferno da arte para de lá trazer a vida.
- Podemos ir embora daqui - disse Porbus a Poussin -; ele não nos ouve mais, não nos vê mais!
- Vamos ao seu ateliê - propôs o rapaz, maravilhado.
- Oh! o velho retre soube defender-lhe a enxada. Seus tesouros estão por demais bem guardados para que possamos chegar até eles. Não esperei tua opinião e tua fantasia para tentar o assalto do mistério.
- Há, então, um mistério?
- Sim - respondeu Porbus. - O velho Frenhofer foi o único discípulo que Mabuse quis ter. Tendo-se tornado amigo dele, seu salvador, seu pai, Frenhofer sacrificou a maior parte de seus tesouros para satisfazer as paixões de Mabuse; em troca, este legou-lhe o segredo do relevo, o poder de dar às figuras essa vida extraordinária, essa flor de natureza, nosso eterno desespero, mas da qual ele possuía tão bem a feitura que um dia, tendo vendido e bebido o damasco de flores com o qual devia vestir-se por ocasião da entrada de Carlos V, ele acompanhou seu senhor com um vestuário de papel pintado de damasco. O brilho particular da fazenda do traje de Mabuse surpreendeu o imperador, o qual, querendo dirigir um cumprimento ao protetor do velho ébrio, descobriu a intrujice. Frenhofer é um homem apaixonado pela nossa arte, que vê mais acima e mais longe do que os outros pintores. Ele meditou profundamente sobre as cores, sobre a verdade absoluta da linha; mas, à força de pesquisas, chegou mesmo a duvidar do objeto delas. Nos seus momentos de desespero, ele acha que o desenho não existe e que com linhas não se podem reproduzir senão figuras geométricas; o que ultrapassa a verdade, porquanto com a linha e o preto, que não é uma cor, pode-se fazer uma figura; o que prova que a nossa arte é, como a natureza, composta de uma infinidade de elementos: o desenho dá o esqueleto, a cor é a vida, mas a vida sem o esqueleto é uma coisa mais incompleta do que o esqueleto sem a vida. Enfim, há alguma coisa mais verdadeira do que tudo isto, e é que a prática e a observação são tudo num pintor, e que, se o raciocínio e a poesia se malquistam com os pincéis, chega-se à dúvida como o velhote, que é tão louco quanto pintor. Pintor sublime, ele teve a desgraça de nascer rico, o que lhe permitiu divagar; não o imite! Trabalhe! Os pintores só devem meditar com o pincel na mão.
- Nós penetraremos lá! - exclamou Poussin, que não ouvia mais Porbus e de mais nada duvidava.
Porbus sorriu ante o entusiasmo do jovem desconhecido e separou-se dele convidando-o a que o fosse visitar.
Nicolas Poussin voltou a passos lentos para a rue de la Harpe e ultrapassou sem se dar conta a modesta hospedaria onde se alojava. Subindo com inquieta celeridade sua escada miserável, chegou a um quarto no alto, situado sob um telhado com trapeira, simples o ligeira cobertura das casas da velha Paris. Junto à única e sombria janela daquele quarto estava uma moça, a qual, ao ruído da porta, ergueu-se subitamente por um impulso de amor; reconhecera o pintor pelo modo com que ele movera o trinco.
- Que tens? - perguntou-lhe.
- Tenho... tenho... - exclamou ele sufocado de gozo - que me senti pintor! Até agora tinha duvidado de mim, mas esta manhã tive confiança em mim! Posso ser um grande homem! Crê, Gillette, seremos ricos, felizes! Há ouro nesses pincéis...
Mas calou-se de repente. Seu rosto grave e vigoroso perdeu sua expressão de alegria quando comparou a imensidão das suas esperanças com a mediocridade de seus recursos. As paredes estavam cobertas de simples papéis cheios de esboços a lápis. Não possuía senão quatro telas próprias. As tintas estavam então muito caras e o pobre rapaz via sua paleta pouco mais ou menos vazia. No seio dessa miséria, ele possuía e sentia riquezas incríveis no coração e a superabundância de um gênio devorador. Trazido a Paris por um de seus amigos, fidalgo, ou talvez pelo seu próprio talento, ele ali veio encontrar subitamente uma amante, uma dessas almas nobres e generosas que vêm sofrer junto a um grande homem, partilham seus trabalhos e se esforçam por compreender-lhes os caprichos; forte para a miséria e o amor, como outros são intrépidos para usar o luxo e fazer ostentação de sua insensibilidade. O sorriso que errava nos lábios de Gillette dourava aquele sótão e rivalizava com o brilho do céu. O sol nem sempre brilhava, ao passo que ela sempre estava ali, interiorizada na sua paixão, presa à sua felicidade, ao seu sofrimento, consolando o gênio que transbordava no amor antes de se apoderar da arte.
- Ouve, Gillette, vem.
A obediente e alegre moça saltou sobre os joelhos do pintor. Era ela toda graça, toda beleza, linda como uma primavera, ornada com todas as riquezas femininas e iluminando-as com o fogo de uma bela alma.
- Oh! Deus! - exclamou ele - jamais me atreverei a dizer-lhe...
- Um segredo? - perguntou ela. - Quero sabê-lo.
Poussin permaneceu pensativo.
- Fala de uma vez.
- Gillette... pobre coração amado!
- Oh! queres alguma coisa de mim?
- Sim.
- Se queres que eu pose ainda para ti, como no outro dia - replicou ela com um arzinho amuado -, jamais consentirei em tal, porque nesses momentos teus olhos não me dizem mais nada. Não pensas mais em mim e contudo me olhas.
- Preferirias ver-me copiando uma outra mulher?
- Talvez - disse ela -, se fosse bem feia.
- Pois bem - replicou Poussin, em tom sério -, se, pela minha glória futura, se, para me tornar um grande pintor, fosse preciso ires posar para outro?
- Queres pôr-me à prova - respondeu ela. - Sabes perfeitamente que eu não iria.
Poussin inclinou a cabeça sobre o peito, como um homem que sucumbe a uma alegria ou a uma dor forte demais para a sua alma.
- Ouve - disse ela puxando Poussin pela manga de seu gibão surrado .-, eu te disse, Nick, que daria minha vida por ti; mas nunca te prometi renunciar ao meu amor enquanto vivesse.
- Renunciar? - exclamou o jovem artista.
- Se eu me mostrasse assim a um outro, tu não me amarias mais, e eu mesma me acharia indigna de ti. Obedecer aos teus caprichos não é uma coisa natural e simples? Embora não queira, sinto-me feliz e mesmo orgulhosa por fazer tua vontade querida. Mas para um outro, Deus me livre!
- Perdoa, minha Gillette - disse o pintor ajoelhando-se aos pés dela. - Prefiro ser amado a ser glorioso. Para mim, és mais bela do que a fortuna e as honrarias. Vai, atira fora meus pincéis, queima esses esboços. Enga- nei-me. Minha vocação é amar-te. Não sou um pintor, sou um amante. Mor- ram a arte e todos os seus segredos!
Ela admirava-o, feliz, seduzida. Ela reinava, sentia instintivamente que as artes eram esquecidas por ela e atiradas a seus pés como um grão de incenso.
- Entretanto, trata-se apenas de um ancião - insistiu Poussin. - Ele não poderá ver em ti senão a mulher. Tu és tão perfeita!
- É preciso amar muito - exclamou ela, pronta a sacrificar seus escrúpulos de amor a fim de recompensar seu amante por todos os sacrifícios que ele lhe fazia. - Mas - acrescentou - isso seria perder-me. Ah! perder-me por ti... Sim, seria uma coisa belíssima! Mas tu me esquecerás. Oh! que mau pensamento esse que tiveste!
- Tive-o e te amo - disse ele com uma espécie de contrição. - Mas então serei um infame?
- Consultemos o velho Hardouin - propôs ela.
- Oh! não; fique isso em segredo entre nós dois.
- Pois bem, irei; mas que não estejas presente - disse ela. - Fica na porta, armado com o teu punhal; se grito, entra e mata o pintor.
Não vendo mais do que sua arte, Poussin estreitou Gillette em seus braços.
''Ele não me ama mais!'', pensou Gillette, quando ficou só.
Já estava arrependida da sua resolução. Mas logo foi presa de um pavor mais cruel do que seu arrepen- dimento; esforçou-se em repelir um pensamento horrível que se erguia em seu coração. Julgava já estar amando menos o pintor por suspeitar ser ele menos estimável do que antes.



II

CATARINA LESCAULT

Três meses depois do encontro de Poussin e Porbus, este foi visitar mestre Frenhofer. O ancião estava então sujeito a um desses desânimos profundos e espontâneos cuja causa, se devemos dar créditos aos matemáticos da medicina, reside numa má digestão, no vento, no calor, ou em alguma inchação dos hipocôndrios; e, segundo os espiritualistas, na imperfeição da nossa natureza moral. O velhote pura e simplesmente se cansara em dar a última demão no seu misterioso quadro. Estava preguiçosamente sentado numa vasta poltrona de carvalho esculpido, forrada de couro preto; e, sem sair de sua atitude melancólica, dirigiu a Porbus o olhar de um homem que se instalara no seu tédio.
- E então, mestre - perguntou-lhe Porbus -, o ultramar que foi buscar em Bruges não era bom? Será que não soube misturar nosso novo branco? Seu óleo era ruim ou os pincéis eram teimosos?
- Ai de mim! - exclamou o ancião - durante um momento acreditei que minha obra estivesse concluída; mas com certeza me enganei nalguns detalhes e não sossegarei enquanto não dissipar minhas dúvidas. Estou decidido a viajar e vou à Turquia, à Grécia, à Ásia para procurar por lá um modelo e comparar meu quadro com alguns nus... É possível que eu tenha lá em cima - continuou, esboçando um sorriso de satisfação - a própria natureza. Por vezes, quase tenho medo de que um sopro desperte aquela mulher e que ela desapareça.
Depois, ergueu-se de repente, como para partir.
- Oh! oh! - respondeu Porbus - chego a tempo para poupar-lhe as despesas e as fadigas da viagem.
- Como assim? - perguntou Frenhofer, admirado.
- O jovem Poussin é amado por uma mulher cuja incomparável beleza não tem a menor imperfeição. Mas, meu caro mestre, se ele consente em emprestar-lha, será preciso pelo menos que nos deixe ver sua tela.
O ancião permaneceu de pé, imóvel, num estado de perfeita estupidez.
- Como! - exclamou ele, por fim, dolorosamente - mostrar minha criatura, minha esposa? rasgar o véu sob o qual castamente encobri minha felicidade? Mas isso seria uma horrível prostituição! Faz dez anos que vivo com essa mulher, ela é minha, só minha, ela me ama. Não me sorriu cada pincelada que lhe dei? Ela tem uma alma, a alma com que a dotei. Ela coraria se outros olhos que não os meus a fixassem. Mostrá-la! mas qual é o marido, o amante suficientemente vil para levar sua mulher à desonra? Quando fazes ora quadro para a Corte, não pões nele toda a tua alma, não vendes aos cortesãos mais do que manequins coloridos. Minha pintura não é uma pintura, é um sentimento, uma paixão! Nascida na minha oficina, ela aí deve permanecer virgem e não pode sair senão vestida. A poesia e as mulheres só se entregam nuas aos seus amantes! Possuímos nós o modelo de Rafael, a Angélica de Ariosto, a Beatriz do Dante? Não! não lhes vemos senão as formas. Pois bem, a obra que tenho lá em cima trancada a ferrolho é uma exceção na nossa arte. Não é uma tela, é uma mulher! uma mulher com a qual choro, rio, converso, penso. Queres que repentinamente eu abandone uma felicidade de dez anos como se atira uma capa; que repentinamente eu deixe de ser pai, amante e deus? Essa mulher não e uma criatura, é uma criação. Que venha o teu rapaz, eu lhe darei meus tesouros, quadros de Correggio, de Michelangelo, de Ticiano, beijarei as pegadas de seus passos na poeira; mas fazer dele meu rival? opróbrio sobre mim! Ah! ah! sou mais amante ainda do que pintor. Sim, terei forças para queimar a minha Belle Noiseuse ao dar o último suspiro; mas fazê-la suportar o olhar de um homem, de um rapaz, de um pintor? não, não! Mataria no dia seguinte aquele que a tivesse poluído com um olhar! Eu te mataria agora mesmo, a ti, que és meu amigo, se não a saudasses de joelhos! Queres agora que eu submeta meu ídolo às frias miradas e às críticas estúpidas dos imbecis? Ah! o amor é um mistério que só tem vida no fundo dos corações, e tudo está perdido quando um homem diz, mesmo ao seu amigo: "Aí está a mulher que amo!"
O ancião parecia ter remoçado; seus olhos tinham brilho e tinham vida; suas faces pálidas estavam matizadas de um vermelho vivo e suas mãos tremiam. Porbus, espantado com a violência apaixonada com que aquelas palavras foram proferidas, não sabia o que responder a um sentimento tão novo como profundo. Frenhofer estava no uso da razão ou louco? Estaria ele subjugado por uma fantasia de artista, ou as idéias que ele exprimira procederiam desse singular fanatismo que se produz em nós pela criação laboriosa de uma grande obra? Poder-se-ia esperar transigir um dia com aquela paixão estranha?
Empolgado por todos esses pensamentos, Porbus disse ao ancião:
- Mas não é uma mulher por outra mulher? Não entrega Poussin sua amante aos olhares do senhor?
- Que amante? - respondeu Frenhofer. - Cedo ou tarde ela o trairá. A minha me será sempre fiel!
- Pois bem - disse Porbus -, não falemos mais nisso. Mas, antes do senhor achar, mesmo na Ásia, uma mulher tão bela, tão perfeita como esta de que lhe falo, morrerá talvez sem ter concluído seu quadro.
- Oh! ele está acabado - disse Frenhofer. - Quem o visse, julgaria estar vendo uma mulher deitada num leito de veludo, velada por cortinas. Junto a ela uma tripeça de ouro exala perfumes. Ficarias tentado a agarrar as borlas dos cordões que retêm as cortinas, e te pareceria ver o seio de Catarina Lescault, uma bela cortesã chamada Belle Noiseuse, mover-se com a respiração. Entretanto, eu quisera ter certeza...
- Vá pois para a Ásia - respondeu Porbus, ao perceber uma certa hesitação no olhar de Frenhofer.
E Porbus deu alguns passos em direção à porta da sala.
Nesse momento, Gillette e Nicolas Poussin tinham chegado junto à residência de Frenhofer. Quando a moça estava a ponto de entrar, soltou o braço do pintor e recuou como se a tivesse invadido algum súbito pressentimento.
- Mas, afinal, que venho eu fazer aqui? - perguntou ao amante com um som de voz profundo e olhando-o fixamente.
- Gillette, deixei-te senhora de tua vontade e quero obedecer-te em tudo. Tu és minha consciência e minha glória. Volta para casa; eu serei mais feliz, talvez, do que se tu...
- Pertenço-me, acaso, quando me falas assim? Oh! não, não sou senão uma criança... Vamos acrescentou, parecendo fazer um esforço violento -, se nosso amor morrer e se puser no meu coração um infindável arrependimento, não será tua celebridade o preço da minha obediência aos teus desejos? Entremos, será ainda viver o estar sempre como uma recordação na tua paleta.
Ao abrirem a porta da casa, os dois amantes se encontraram com Porbus, o qual, surpreendido pela beleza de Gillette, cujos olhos estavam naquele momento rasos de lágrimas, segurou-a toda trêmula e, levando-a ante o ancião, disse-lhe:
- Veja, não vale ela todas as obras-primas do mundo?
Frenhofer estremeceu. Gillette ali estava, na atitude ingênua e simples de uma jovem georgiana inocente e medrosa, raptada por bandidos e apresentada a algum mercador de escravos. Um pudico rubor corava seu rosto; ela baixava os olhos; as mãos pendiam aos lados, as forças pareciam abandoná-la, e lágrimas protestavam contra a violência feita ao seu pudor. Nesse momento, Poussin, desesperado por ter tirado do sótão aquele belo tesouro, amaldiçoou-se a si próprio. Tornou-se mais amante do que artista, e mil escrúpulos torturaram-lhe o coração quando viu os olhos rejuvenescidos do ancião, o qual, por um hábito de pintor, despiu, por assim dizer, aquela moça, adivinhando-lhe as formas mais secretas. Retornou então ao feroz ciúme do verdadeiro amor.
- Partamos, Gillette! - bradou.
Ante aquele rasgo, a amante, alegre, ergueu os olhos para ele, viu-o, e correu para seus braços.
- Ah! então tu me amas! - respondeu, desatando a chorar.
Depois de ter tido a energia de fazer calar seu sofrimento, ela não tinha forças para ocultar sua felicidade.
- Oh! deixe-ma por um momento - disse o velho pintor - e poderás compará-la com a minha Catarina... Sim, consinto.
No grito de Frenhofer ainda havia amor. Parecia ter faceirice para com seu simulacro de mulher e gozar de antemão o triunfo que a beleza de sua criação ia conseguir sobre a de uma verdadeira moça.
- Não o deixe desdizer-se - exclamou Porbus, batendo no ombro de Poussin. - Os frutos do amor passam depressa, os da arte são imortais.
- Para ele - respondeu Gillette, olhando Poussin e Porbus atentamente - eu não serei então mais do que uma mulher?
Ergueu a cabeça com altivez; mas, quando, depois de dirigir um olhar cintilante a Frenhofer, ela viu seu amante entretido a contemplar outra vez o retrato que anteriormente ele tomara por um Giorgione:
- Ah! - disse ela - subamos! Ele nunca me olhou assim.
- Ancião - disse Poussin, arrancando à sua meditação pela voz de Gillette -, olha esta espada, eu a mergulharei no teu coração à primeira palavra de queixa que proferir esta moça, atearei fogo a tua casa, e ninguém sairá dela. Compreendes?
Nicolas Poussin estava sombrio e seu falar foi terrível. Essa atitude e sobretudo o gesto do jovem pintor consolaram Gillette, que quase o perdoou por sacrificá-la à pintura e ao seu glorioso futuro. Porbus e Poussin ficaram na porta do ateliê, olhando em silêncio um para o outro. Se, a princípio, o pintor de Maria Egipcíaca se permitiu algumas exclamações: "Ah! ela se está despindo, ele manda-a colocar-se em boa luz! Compara-a!", pronto calou-se ante o aspecto de Poussin, cujo semblante estava profundamente triste; e, conquanto os velhos pintores não tenham mais escrúpulos desses, tão mesquinhos diante da arte, ele admirou-os, de tal forma eram ingênuos e bonitos. O rapaz estava com a mão no punho da espada e com o ouvido quase colado à porta. Ambos, na sombra e de pé, assemelhavam-se assim a dois conspiradores à espera da hora de apunhalar um tirano.
- Entrem, entrem! - disse o ancião, radiante de felicidade. Minha obra está perfeita, e agora posso mostrá-la com orgulho. Jamais pintor, pincéis, tintas, tela e luz farão uma rival a Catarina Lescault, a bela cortesã!
Possuídos de viva curiosidade, Porbus e Poussin correram para o centro de uma vasta oficina coberta de pó, onde tudo estava em desordem, onde viram aqui e ali quadros pendurados nas paredes. Detiveram-se primeiro diante de uma figura de mulher de tamanho natural, seminua, que os encheu de admiração.
- Oh! não se ocupem com isso - disse Frenhofer -, é uma tela que borrei para estudar uma pose; esse quadro não vale nada. Aí estão meus erros - continuou, mostrando-lhes encantadoras composições penduradas às paredes, à roda deles.
Ante essas palavras, Porbus e Poussin, estupefatos com aquele desdém por tais obras, procuraram o retrato anunciado, sem conseguir vê-lo.
- Pois bem, aí está ele! - disse-lhes o ancião, cujos cabelos estavam em desordem, cujo rosto estava injetado por uma exaltação sobrenatural, cujos olhos cintilavam, e que ofegava como um rapaz ébrio de amor. - Ah! ah! - exclamou - não esperavam tanta perfeição! Estão diante de uma mulher e procuram um quadro. Há tanta profundidade nessa tela, o ar é nela tão real que não podem mais distingui-lo do ar que nos cerca. Onde está a arte? perdida, desaparecida! Eis as formas verdadeiras de uma rapariga. Não lhe dei bem o colorido, a precisão das linhas que parecem terminar o corpo? Não é o mesmo fenômeno que nos apresentam os objetos que estão na atmosfera como os peixes na água? Admirem como os contornos se destacam do fundo! Não lhes parece que podem passar as mãos nesse dorso? Também, durante sete anos, estudei os efeitos da conjunção da luz e dos objetos. E esses cabelos, não os inunda a luz?... Mas, creio, ela respirou!... Vejam, esse seio! Ah! quem não o quereria adorar de joelhos? As carnes palpitam. Ela vai erguer-se, esperem!
- Está vendo alguma coisa? - perguntou Poussin a Porbus.
- Não. E você?
- Nada.
Os dois pintores deixaram o velho entregue a seu êxtase, olharam para ver se a luz, ao cair a prumo sobre a tela que ele lhes estava mostrando, não neutralizava todos os seus efeitos. Examinaram então a pintura colocando-se à direita, à esquerda, de frente, abaixando-se e levantando-se alternativamente.
- Sim, sim, é mesmo uma tela - dizia-lhes Frenhofer, enganando-se com a finalidade daquele exame escrupuloso. - Olhem, aqui está a moldura, o cavalete, enfim, aqui estão minhas tintas, meus pincéis.
E apoderou-se de um pincel, que lhes apresentou num gesto ingênuo.
- O velho lansquenete está divertindo-se à nossa custa - disse Poussin, voltando para diante do pretenso quadro. - Não vejo ali senão cores confusamente amontoadas e contidas por uma porção de linhas esquisitas que formam uma muralha de pintura...
- Nós nos enganamos, veja! - respondeu Porbus.
Aproximando-se, perceberam num canto da tela a ponta de um pé nu que saía daquele caos de cores, de tons, de matizes indecisos, espécie de bruma sem forma; mas um pé delicioso, um pé com vida! Ficaram petrificados de admiração diante daquele fragmento escapo a uma incrível, a uma lenta e progressiva destruição. Aquele pé aparecia ali como um torso de alguma Vênus de mármore de Paros que surgisse de entre os escombros de uma cidade incendiada.
- Há uma mulher por baixo disso! - exclamou Porbus, fazendo Poussin notar as camadas de tinta que o velho pintor superpusera sucessivamente ao julgar que aperfeiçoava sua pintura.
Os dois artistas viraram-se espontaneamente para Frenhofer, começando a compreender, porém de modo vago, o êxtase no qual ele vivia.
- Ele está de boa-fé - disse Porbus.
- Sim, meu amigo - respondeu o ancião, despertando -, na arte é preciso fé, fé, e viver muito tempo com a própria obra para produzir semelhante criação. Algumas dessas sombras custaram-me muito trabalho. Olhe sobre a face, ali, abaixo dos olhos, há uma leve penumbra que, se a observarem na natureza, parecer-lhes-á quase intraduzível. Pois bem, julgam vocês que esse efeito não me custou trabalhos inauditos para reproduzi-lo? Mas também, meu caro Porbus, olha atentamente para o meu trabalho e compreenderás melhor o que eu te dizia sobre o modo de tratar o modelado e os contornos. Olha a luz do seio e vê como, por uma série de retoques e de realces fortemente empastados, consegui agarrar a verdadeira luz e combiná-la com a alvura lustrosa dos tons iluminados; e, como por um trabalho oposto, apagando as saliências e o grão da pasta, pude, à força de amaciar o contorno da minha figura, mergulhada nos semitons, suprimir até a idéia de desenho e de meios artificiais, e dar-lhe o aspecto e o próprio ondulado da natureza. Aproximem-se e verão melhor esse trabalho. De longe, ele desaparece. Vejam! ali, creio, ele é bem visível.
E com a ponta do pincel designava aos dois pintores um bloco de cor clara.
Porbus bateu no ombro do ancião, virando-se para Poussin:
- Sabe que vemos nele um bem grande pintor? - disse.
- Ele é ainda mais poeta do que pintor - respondeu Poussin gravemente.
- Aqui - prosseguiu Porbus, tocando a tela - acaba a nossa arte sobre a terra.
- E, daí, vai perder-se no céu - disse Poussin.
- Quanto gozo nesse pedaço de tela! - exclamou Porbus.
O ancião, absorto, não os ouvia e sorria àquela mulher imaginária.
- Mas cedo ou tarde ele se aperceberá de que não há nada na sua tela! - exclamou Poussin.
- Nada na minha tela! - disse Frenhofer, olhando alternativamente os dois pintores e seu pretenso quadro.
- Que fez você! - disse Porbus em voz baixa a Poussin.
O velho segurou com força o braço do rapaz e disse-lhe:
- Nada vês, labrego! tratante! patife! desavergonhado! Para que, pois, subiste aqui? Meu bom Porbus - disse ele virando-se para o pintor -, será que você também se está divertindo à minha custa? Responda! sou seu amigo, diga, teria eu estragado meu quadro?
Porbus, indeciso, não se atreveu a falar; mas a ansiedade pintada na fisionomia lívida do ancião era tão cruel que ele apontou para a tela, dizendo:
- Veja!
Frenhofer contemplou seu quadro um instante e cambaleou.
- Nada! nada! E ter trabalhado dez anos!
Sentou-se e chorou.
- Sou pois um imbecíl, um louco! não tenho nem talento nem capacidade! Não sou senão um homem rico que, ao caminhar, nada mais faz do que caminhar! Não terei, pois, produzido nada!

Contemplou a tela através de suas lágrimas, ergueu-se subitamente com orgulho e lançou aos dois pintores um olhar fulgurante:

- Pelo sangue, pelo corpo, pela cabeça de Cristo! vocês são uns invejosos que me querem fazer crer que ela está estragada, para ma roubarem! Eu vejo-a! - gritou - ela é maravilhosamente bela...

Naquele momento Poussin ouviu o pranto de Gillette, esquecida num canto.

- Que tens, meu anjo? - perguntou-lhe o pintor, voltando a ser um apaixonado.

- Mata-me! - disse ela. - Eu seria uma infame se te amasse ainda, porque te desprezo... Admiro-te, e me causas horror! Amo-te, e creio que já te odeio!

Enquanto Poussin ouvia Gillette, Frenhofer cobria sua Catarina com uma sarja verde, com a séria tranqüilidade de um joalheiro que fechasse suas gavetas ao julgar-se na companhia de hábeis ladrões. Dirigiu aos dois pintores um olhar profundamente dissimulado, repleto de desprezo e de desconfiança, pô-los silenciosamente fora de sua oficina, com uma presteza convulsiva; depois, à porta de sua casa disse-lhes:

- Adeus, meus amiguinhos.

Esse adeus gelou os dois pintores. No dia seguinte, Porbus, inquieto, voltou para ver Frenhofer e soube que ele morrera a noite, depois de ter queimado suas telas.

Paris, fevereiro de 1832

tradução de Ruth Guimarães








12.4.13

Galeria




"baby", 2006, óleo sobre linho




Entre o surrealismo e o fantástico, entre o macabro e o grotesco, as pinturas de Fulvia Zambon


A artista plástica italiana Fulvia Zambon nasceu em Turim e vive em Nova Yorque. Suas obras surrealistas tratam de cenas "cruas", beiram o grotesco, chocam o espectador. Alguns quadros lembram a dor e o fantástico da mexicana Frida Kallo.


"Eu retrato um mundo onde a carrinhos de bebê são veículo, casa e abrigo para estas estranhas jovens criaturas, alguns deles com membros amputados ou voando por um céu improvável"  (I depict a world where Baby-Carriages are a vehicle, home and shelter for strange young creature, some of them with missing limbs or flying in improbably sky)                               Fulvia Zambon





"baby", 2006, óleo sobre linho





"baby", 2006, óleo sobre linho





"pequena vida" (velório), 1999, óleo sobre linho




"canção para uma criança", 1996, óleo sobre linho




"caldo de galinha",1998, óleo sobre linho




"a rainha", 1997, óleo sobre tela








6.4.13

Galeria


cavalo - escultura de Heather Jansch

As incríveis esculturas da artista inglesa Heather Jansch

Sua primeira exposição já foi ao lado de "luminares" como Henry Moore, Hepworth Barbara, Frink Elizabeth , Anish Kapoor, Anthony Gormley e David Nash, no The Shape of The Century, cem anos de escultura, na Grã-Bretanha (2000). A artista inglesa Heather Jansch, nascida em Essex, 1948, esculpe cavalos, ursos, cervos e outros animais em tamanho natural, usando troncos de árvores.



cavalos - esculturas de Heather Jansch



urso - escultura de Heather Jansch









9.3.13

Pintura e Poesia


Flora Tristán

Arte e Poesia



O que há de comum em Paul Gauguin e Flora Tristan?

Paul Gauguin era neto da poetisa e revolucionária parisiense Flora Tristán (1803 -1844).
Flora Tristán nasceu em Paris, mas viveu parte de sua inf ância na Espanha, onde teve , desde cedo, contato com o pensamento socialista: Simón Bolívar era um dos frequentava a casa de sua mãe, inclusive circulam especulações de que seria seu pai biológico.
O interesse pela arte e pela Litografia levou Flora a trabalhar no atelier de seu futuro marido, aos 17 anos: um casamento abusivo do qual teve que fugir, levando seus dois filhos, cinco anos mais tarde. A justiça (ou seja, a injustiça da época), entregou a guarda do menino ao seu ex-marido e ela ficou apenas com a filha, Aline, que mais tarde seria a mãe do pintor famoso.
Diante de todas as injustiças sofridas, e do seu pensamento libertário, Flora se consagrou pioneira na luta pela emancipação das mulheres.
O livro Peregrinações de una Pária(1838) é um marco do pensamento feminista francês. Sua novela Méphis (1838) defende o divórcio e o amor livre. A União Obreira (1843) é um programa de organização de uma internacional de trabalhadores.


E quanto a Gauguin? Sua avó não sentiria orgulho algum do "homem" que foi. Salvo seu genial talento artístico, sua vida no Haiti demonstrou um homem violento e abusivo: chegou a manter em cárcere sua parceira nativa, após tê-la flagrado com outro. Mas, incontestável a influência poética de sua famosa avó nestes pequenos versos ensaiados numa carta ao amigo Monfried, onde confessa a ligação íntima de sua arte com a poesia:


aqui a poesia solta-se por si
e basta entregarmo-nos ao sonho
enquanto pintamos para sugerí-la


Paul Gauguin

Mario Vargas Llosa, escritor peruano, faz uma análise da trajetória de  FLora Tristán e o neto Paul Gauguin em sua novela histórica "El Paraíso en la otra esquina".

Para saber mais sobre Flora Tristán, assista este ótimo documentário:



















4.3.13

Galeria



ilusão de ótica
"auto-retrato" Oleg Shuplyak

O artista ucraniano Oleg Shuplyak, mestre da ilusão de ótica, brinca com os mestres Monet, Van Gogh, Renoir...



Олег Шупляк ou Oleg Shuplyak,  nasceu em Berezhany, pequena aldeia de Ternopil, Ucrânia, em 1967.  Arquiteto por formação, Oleg Shuplyak dedicou-se ao ensino da arte e à restauração, ao mesmo tempo em que participava de exposições em Kiev, Ternopil, Lviv, Ivano-Frankivsk, Lutsk, Khmelnytsky, Notthingham. Hoje é conhecido no mundo todo como o mestre do ilusionismo. É membro da União dos Artistas da Ucrânia e sua obra transita pelo pós-modernismo, abstracionismo e principalmente o surrealismo. Além disso, ele também faz  fotografia. 



ilusão de ótica
"Shevchenko"  (expoente da literatura ucraniana ) Oleg Shuplyak



ilusão de ótica
"Newton" Oleg Shuplyak



ilusão de ótica
"Van Gogh" Oleg Shuplyak


ilusão de ótica
"Monet" Oleg Shuplyak



ilusão de ótica
"Renoir" Oleg Shuplyak



ilusão de ótica
"Stalingrado" Oleg Shuplyak






3.3.13

Revistas de literatura


exposição de Revistas do Acervo de Paco Cac, - curadoria de Alexandre Brito

Balaio de Revistas


Degusto, neste momento, alguns periódicos? literários: um exemplar do Balaio e alguns números da Urbana, trazidos de Brasília. As revistas raras foram presente do amigo Paco Cac, que foi um dos editores da Urbana (de 1980 até o início dos anos 1990) e também da revista Gandaia (década de 70), amas no Rio de Janeiro. Ele próprio, Paulo Cezar Alves Custódio, dedica-se à pesquisa e ao acervo de revistas sobre literatura publicadas no Brasil. É autor/organizador do Volume I Revistas Literárias Brasileiras 1970 - 2005 editado por Cesb Centro De Ensino Superior Do Brasil em 2018, fonte obrigatória de referência sobre o assunto. Paco Cac  edita, atualmente, a revista Z, com colaboração do poeta gaúcho Alexandre Brito. Mas, falaremos mais sobre a Revista Z em outra ocasião! Vamos ao balaio:

Leio já no primeiro parágrafo, uma advertência: "Este é um balaio de poemas gráficos e visuais impuros. O espaço aberto pela antropofagia, de um lado, e pelo poema/processo, do outro, encontra - nesta folha - o lugar adequado para uma atividade produtiva que resultará, sob o signo do experimental, numa prática necessariamente revolucionária e (anti)literária".

Balaio:
Publicação off-set, folha ofício dobrada ao meio, ou seja,  quatro páginas. Rio de Janeiro, RJ. Editores: João Carlos Sampaio, Samaral; Cármen Saporetti ; Moacy Cirne;  Nenn. Contém propostas e poemas experimentais. Slogan: “Viver com os olhos livres”. Publicação de vanguarda.

Muitas publicações semelhantes surgiram e desapareceram entre as décadas de 60 e 80. Por isso, a importância de guardá-las entre as mãos.

Aqui, uma pequena relação das que eu gostaria de encontrar por aí, sem compromisso, numa empoeirada prateleira de sebo:

O Guaíba
"Periódico Semanal, Literário e Recreativo". Primeiro jornal essencialmente dedicado às letras, no Rio Grande do Sul. Circulou de 3 de agosto de 1856 a 26 de dezembro de 1858, totalizando cento e vinte números. Editor: Carlos Jansen.

Abre-Alas
Revista, a princípio, mimeografada, seis páginas, de publicação quinzenal da "Sociedade de Articultura". O número 1 não registra data, presumindo-se o ano de 1981, pois o número 5 é de 26/09/1981. Posteriormente, impressa em off-set, com quatorze páginas e tiragem de 1.500 exemplares. Juiz de Fora, MG. Entre os participantes constam: Fernando Fábi Fiorese Furtado, João Batista Jorge, José Alexandre Marino, Rejane Villanova, José Henrique da Cruz, Leila Miccolis, P.J. Ribeiro, Suraia Mockdece, Alcides Buss, Cláudio Feldman, Teresinha Pereira. Contém poesias de várias tendências e indicações de livros. Na última página há sempre a sessão “na garupa”, com um poeta focalizado. Revista literário-poética

Alegria Blues Banda:
Das duas publicações não constam data, mas depreende-se, pela leitura dos textos, que uma é de 1979 e a outra de 1980. A primeira é publicação grampeada, com vinte e quatro páginas: a página inicial com formato de 22 X 11cm, sendo cada página seguinte aumentada de cerca de um centímetro até chegar a 21,6cm, em papéis coloridos, inclusive entremeados com folhas de jornal. Belo Horizonte, MG. A segunda revista é grampeada, off-set, formato 22 X 16,5cm. Publicação do grupo “Cem Flores”. Entre os participantes constam: Luciano Cortez, Marcelo Dolabella, Avanilton de Aguillar, Paulo Bruscky, Lúcia Villares, Nicolas Behr, Tanussi Cardoso, Carlos Araújo, Carlos Barroso, André Bueno, Juca, Ilka Boaventura. Contém poemas, ilustrações, contos, quadrinhos, endereços de autores independentes, propostas visuais.

Alfa Centauri:
Revista, off-set, em geral com formato de 3,4 X 16cm ( o número 22 tem 26 X 20cm), com número de páginas variando de duas a setenta. Belo Horizonte, MG. Editora: Zulmira Lins. O número 5 é de julho de 1973. Entre os colaboradores constam: Lauro de Oliveira Lima, Teresinha Pereira, Leila Miccolis, Luís, João Carneiro. Contém ilustrações, poesia, artigos, anúncios, entrevistas, críticas, contos, textos, notícias. Revista Cultural e literária.

Americanto:
Revista, off-set, grampeada, formato 22 X 16cm, com oito páginas, posteriormente aumentada para doze. Recife, PE. Direção: Fátima Ferreira e Hector Pellizzi. Colaboradores: Caesar Sobreira, Alberto da Cunha Melo, Ana Lúcia Bandeira, Daniel Santiago. Entre os colaboradores constam: Andréa Mota, Manuel Constantino, Wir Caetano, Kátia Bento, Sérgio Lima Silva, Nicolas Behr, Ulisses Tavares, Leila Miccolis, Cláudia Juhareiz Correya, Samuel Santos, Barreto, Cláudio Feldman. O número 1 é datado de novembro/1981. Contém ilustrações, entrevistas, poesia, notícias, recados, e, a partir do número dois, fotos. Revista literária.

Anima:
Revista cultural, off-set, formato 30 X 23cm, capa policrômica, miolo preto e branco, cinqüenta e oito páginas, bimestral. Editora Nuvem Cigana. Rio de Janeiro, RJ. Editores: José Carlos Capinam e Abel Silva. A edição 192 é de abril /maio de 1976.

Antena:
Jornal cultural, mini tablóide, off-set, em preto e branco, formato 36 X 28cm. Editor: Alberto Silva. Colaboradores: Vicente Portela e Leonardo Fróes. A edição número 1 é de 20 de março de 1990; a edição número 2 é de julho de 1990. O jornal tem desenhos, poesias, artigos sobre literatura e resenhas de livros.

Apenas:
Revista, grampeada, a princípio mimeografada, posteriormente em off-set, formato 21,6 X 16,5cm. Editada pelo grupo do mesmo nome. Bauru, SP. Editores: Reinaldo Tech, Raul Gonçalves Paula, Marco Antônio (Kako), Luís Vítor Martinello, Alberto Sérgio Sanchez, André Luís Mizokami, Luiz Carlos Oliveira. O número 2 é datado de setembro de 1980, distribuição gratuita, tiragem de 1.500 exemplares em abril de 1981 e de 2000 em maio /junho/julho e agosto de 1981. Contém poesias, ilustrações, anúncios, notícias. Revista literária do Grupo Apenas, exclusivamente poética.

Aqui Ó:
Publicação variando de folhas e formatos: número um com vinte páginas, número dois com dezesseis, ambos possuindo 16 X 10,8cm; os números três e quatro com doze, formato 22 X 16cm, mimeografada. Belo Horizonte, MG. Publicação do grupo “Cem Flores”. Os três primeiros números são de 1979, sem indicação do mês; o número 4 não possui registro sequer de ano. Entre os colaboradores constam: Marcelo Dolabela, Ilka Boaventura, Avanílton de Aguiar, Jair, Juca, João Batista Jorge, Marcoantonio, Elmer Ferreira Luiz. Contém ilustrações, poesias, algumas propostas visuais. Publicação literário-poética.

Arjuna – O canto guerreiro:
Revista, off-set, grampeada, formato 27,1 X 18,2cm. Rio de Janeiro, RJ. Edição: Paulo Luís Barata. Participação: Orlando Pinho, Dulce Tupy, Antônio Risério, Augusto de Campos, Jorge Mautner, Gilberto Gil, Smetak, Paulo Leminsky, Sérgio Natureza. O número especial é datado de 1981, sem registro do mês. Contém fotos, desenhos, poesia, ilustrações, entrevistas. Publicação cultural, com enfoques em poesia e música popular brasileira.

Arsenal de Cultura:
Revista, off-set, formato horizontal com 14,5 X 21,5cm, com cerca de quarenta e oito páginas, sendo o número um datado de janeiro de 1981 (grampeado) e o número dois de outubro de 1981 (colado) com capa plastificada. Fortaleza, CE. Editor chefe: Floriano Martins. Conselho editorial: Aírton Monte, Nilto Maciel, Batista de Lima, Gentil Barreira, Paulo Barbosa, Lauro Júnior. Entre os inúmeros colaboradores constam: Akemi Waki, Aricy Curvello, Paulo Veras, João Carneiro, Eduardo Kac, Leila Miccolis, Paulo Nassar, Charles Keiffer, Salomão Souza. Contém poesias, fotos, textos, registro de livros, contos, pequenos ensaios, comentários. Tem como slogan: “Órgão oficioso da Oh!? Posição”. Revista cultural e literária

Arsenal de Literatura:
Revista, off-set, grampeada, formato de 19,1 X 15,1cm. Fortaleza, Ceará. Editor-chefe: Floriano Martins. Conselho editorial: Aírton Monte, Batista Lima, Paulo Barbosa. Entre os colaboradores constam: Ademir Assunção, Zé Pinto, Paulo Gurgel, Carlos da Silva. Projeto inicial datado de novembro de 1980. Contém ilustrações, fotos, poesias, contos. Revista literária.

Artes:
Jornal, off-set, formato 32,3 X 24cm, com dezesseis páginas, editado em São Paulo, SP. Tiragem: 3.000 exemplares. Diretor: Carlos Von Schmidt. Entre os colaboradores constam: Roberto Piva, Flávio Motta, Marcelo Kahns, Yolanda Amidei. O número 43 é datado de julho de 1975. Contém entrevistas, fotos, críticas, ensaios, artigos, ilustrações. Revista cultural, enfocando predominantemente cinema e artes visuais.

Ato do Vapor:
Publicação mimeografada, folha única (verso e reverso) tamanho ofício, o número zero sem indicação de ano ou data. Participantes: Cosmar, Leonel. O número 1 é editado de 1979. O número 11, especial, foi feito em Salvador, BA, e dele constam: Samaral, Zeca Magalhães, Geraldo Maia. Os participantes fazem parte do Movimento Poetas na Praça e foram presos, inclusive, por recitarem poemas desta publicação, sendo essa apreendida. Contém poesia, fotos, ilustrações, além de alguns projetos visuais. Publicação poético-literária, de linha anarquista.

Blocos:
Jornal cultural, formato de 34 X 28cm, em preto e branco, off-set, bimestral, tiragem de 3.000 exemplares. Editores: Urhacy Faustino e Leila Míccoles. Editado no Rio de Janeiro, RJ. A edição número 1 é de março /abril de 1991 e contém quatro páginas. Já a edição número 4 conta com sete páginas. O jornal contém cartas dos leitores, poesia, programação de eventos culturais, ilustrações e horóscopo.

Boca:
Página de literatura e humor, tablóide, em off-set. Encartada no jornal Correio de Curitiba, PR, com circulação aos sábados. Entre os colaboradores constam: Paulo Leminski, Henfil, Luiz Fernando Veríssimo, Tiago, Adherbal F. Sá Júnior. O número 22 é de 28 de abril de 1979. Contém charges e textos de humor.

Cascavel sem Chocalho Perdeu de Touca:
Revista, off-set, formato 22 X 16cm. Goiânia, Goiás. Editores: Dourivan e Magel Felix. Entre os colaboradores constam: Lu de Oliveira, Joel da Corte, Eduardo Leão, Naief Alassai, Samuel Rocha, Phaulo Gonçalves, Tagore Biran. O número 1 é datado de 1981, sendo todas essas informações extraídas da carta explicativa que acompanha a publicação. Contém poemas, propostas visuais. Publicação cultural e literária.

A Cigarra:
Boletim, mimeografado, grampeado, formato ofício, doze páginas impressas de um só lado. Santo André, São Paulo. Editores: Jurema Barreto de Souza e Terezinha Sávio. Entre os colaboradores constam: Nivaldo Menezes, Moduan Matos, Sérgio Amaral Silva, José Batista de Lima, Aricy Curvello, Vilson Melo Corrêa. O número 2 é datado de agosto/dezembro de 1982. Contém ilustrações, informações e poesia. Publicação literária, exclusivamente poética.

Cirandinha:
Revista, off-set, semestral, grampeada, formato 22,3 X 16,8cm, oitenta páginas. Teresina, PI. Editor: Francisco Miguel de Moura. Comissão de literatura: Gloria Sandes, Hardi Filho, Rubervan do Nascimento. Cartuns: Dodó Macedo, Arnaldo, Marcos Mendra. Arte: Alberto Piauí. Entre os inúmeros colaboradores constam: Franklin Jorge, Cirineu Cardoso, Nicolas Behr, Teresinha Pereira, Paulo Machado, Cinéas Santos, O número 1 é datado de novembro de 1977. Contém fotos, charges, poemas, depoimentos, resenhas, notícias literárias, anúncios, cartuns, entrevistas, contos, além de um encarte permanente, grampeado com a revista, em folhas de coloração diferente. Revista cultural de literatura e artes.

Corpo Estranho ou Corpo Extranho:
Revista, off-set, formato 24 X 7,5cm, quarenta páginas, capa plastificada. São Paulo, SP. Editores: Júlio Plaza e Régis Bonvicino. Corpo Consultivo: Ana Bella Geiger, Augusto de Campos, Erthos Albino de Souza, Pedro Tavares de Lima, Regina Silveira, Walter Zanini. Entre os colaboradores constam: Paulo Leminski, Haroldo de Campos, Omar Khouri, Regina Silveira. O número 2 é datado de setembro/dezembro de 1976 e tem como slogan: “Criação intersemiótica”. O número 3 janeiro/junho de 1982 chama-se Corpo Extranho e tem como slogan: “Revista de criação”. Contém cento e noventa páginas em formato 19,3 X 10,5cm, confeccionada em três cores, semestralmente. Publicação vanguardista, com trabalhos lineares e visuais.

Escrita – Revista mensal de literatura:
Revista, off-set, formato de 27,7 X 21,1cm, na primeira fase variando de vinte e quatro a cinqüenta e seis páginas. São Paulo, SP. Editor: Ladyr Nader. Redação: Astolfo Araújo e Hamilton Trevisan. Colaboradores: Antônio Torres, Flávio Moreira da Costa, Antônio Hohlfeldt, Reinoldo Atem, Raimundo Caruso, Nagib Jorge Neto, J. Medeiros, Cinéas Santos, Clodomir Monteiro, Márcio de Souza, Maria Amélia Mello (equipe ampliada no número 32). Entre os colaboradores eventuais: Sílvio Fiorani, Domingos Pellegrini Jr., Roniwalter Jatobá, Samuel Rawet, Leila Miccolis, Glauco Mattoso, Ledo Ivo, Silviano Santiago, Moacir Amâncio, Paulo Leminski, Carlos Emílio, Affonso Romano de Sant ́Anna, Antônio Carlos Villaça, Lígia Averbuck. O número 1 é de 1975. No número 19 (1977) há entrevista intitulada: “A vez dos marginais”, com os participantes do grupo Nuvem Cigana. A partir do número 28 muda de formato, passando para 22,7 X 15,5cm, capa plastificada, variando de sessenta e quatro a cento e vinte e oito páginas. Contém prosa, poesia, entrevistas, reportagens, fatos, publicidade, esquema de assinaturas, resenha de livros, artigos, contos, serviços, informações de autores independentes. Escrita tem dois desdobramentos: Escrita Ensaio e Escrita Livro (ver verbete correspondentes correspondentes). Publicação literária.

Et Cetera:
Revista, mimeografada, variando de quarenta a sessenta e quatro páginas, formato de 21,5 X 55
16,1cm. Varginha, MG. Direção: Francisco Antônio Romanelli e Orestes Maurício Regispani. Assistente: Ubirajara Franco Rodrigues. Entre os colaboradores constam: Maria Isabel Souza Pinto, Cleonice Rainho, Marise Pacheco, Joaquim Branco, Herculano Villas-Boas, Ismar Bersot, Mario Newton Filho, Moacyr Scliar, Jefferson Ribeiro de Andrade, Cícero Acaiaba, Cássia Maria Mota Nogueira. O número 1 é datado de agosto de 1973. Contém poesias, notícias, publicidade, entrevista, contos e ilustrações. Revista literária.

Há Vagas para Texto e Traço:
Revista cultural, formato horizontal, formato 20 X 21cm, off-set, em preto e branco, quarenta páginas. Editada em Brasília, DF. Pessoal que botou a mão na massa: Chico Leite, Armando Veloso, Domingos Pereira Neto, José Alexandre Murino, Paulo Joe, Theophilus, Jefferson Jr, Cristina e Emerson Tomaz. A edição número 2 da revista é da primavera de 1984. A revista tem poesias, contos, desenhos e ilustrações.

Hera:
Revista, off-set, a maioria grampeada (os números 11 e 12 são colados), variando o número de páginas de vinte a sessenta e duas e o tamanho, cada uma em formato diferente, indo de 16,9 X 11,2 (o número 6) até 22,2 X 14,2cm (o número 13). Feira de Santana, BA. Diretor: Roberto Pereyra, Secretário: Gastão Coreia. Entre os inúmeros colaboradores constam: Antônio Brasileiro, Carlos Cunha, Evandro Barreto, Erthos Albino de Souza, Juracy Dórea, Wilson Allende, Luís Pimentel, Washington Queiros, Cid Seixas. Revista literária, exclusivamente poética. O Grupo Hera surgiu em 1972.

Mirante:
Revista independente de poesias e literatura, editada pelo poeta e escritor Valdir Alvarenga, desde sua criação há 28 anos, e atualmente coeditada por Sidney Sanctus. Já conta com 72 edições. Santos, SP.

Poesia Livre:
Saquinho em papel pardo, com folhas soltas, formato 11 X 27cm, off-set. Ouro Preto, MG. Diretor responsável: Guilherme Mansur Barbosa. Equipe editorial: Mariza Esteffânio, Olávio Ramos, Petrus, Romário Rômulo, Régis Gonçalves. O número 1 é de abril de 1977. Até os quatro primeiros números foi divulgada principalmente a criação poética local. A partir do quinto número, dezembro de 1979, abriu espaço para outros estados. Sempre sem perder a forma artesanal, sua marca registrada. O número extra, primavera de 1982, saído após o número 10, contém reportagem de Glauco Mattoso, Touchê e dez autoras brasileiras: Kátia Bento, Maria Amélia Mello, Marília Zenkner, Glória Perez, Leila Miccolis, Astrid Cabral, Eugênia Cunha, Suzana Kfuri Vargas, Iára Vieira, Rosa de Lima e, entre os escritores constam: Affonso Romano de Sant ́Anna, Marcelo Dolabela, Bráulio Tavares, Sebastião Nunes, Dirceu Quintanilha, Paulo Leminski. Tiragem: 2000 exemplares, com sistema de assinaturas. Publicação registrada em cartório, reunindo diversos estilos e tendências, enfocando temáticas as mais diversas. Publicação literário-poética.

Poesia - Pau - Brasília:
Revista de poesias, em preto e branco, mimeografada, formato 16 X 10cm, trinta e duas páginas. Editor: Nicolas Behr. Editada em Brasília, DF. A edição de Julho de 1980 não tem número. A revista tem poesias.

Polem:
Revista, off-set, capa policrômica, noventa e seis páginas, formato 25 X 18cm.  Rio de Janeiro, RJ. O exemplar datado de setembro/ outubro de 1974 não tem número. Editor: Duda Machado e Hélio Raimundo Santos Silva. Coordenação editorial: Robson Achiamé Fernandes e Maurício Cirne. Planejamento gráfico: Ana Maria Silva de Araújo. Entre os colaboradores constam: Augusto e Haroldo de Campos, Torquato Neto, Décio Pignatari, Chacal, Waly Sailormoon, Caetano Veloso, Hélio Oiticica, Rubens Gerchman. Contém poemas, história em quadrinhos, propostas visuais e poética de vanguarda. Publicação literária.

Post/Art - Coreoartistas de todos los países, univos:
Revista de arte correio, em preto e branco, mimeografada, formato 28 X 21cm, treze páginas. Editada no México. O número 1 é de julho de 1981, o número 2 é de dezembro de 1981. A revista tem fotos de arte correio de vários países.

Rac Revista de Arte Correio:
Publicação, off-set, formato 21,5 X 18cm, vinte e quatro páginas, bimensal. São Paulo, SP. O primeiro número é de novembro de 1979, tendo como responsáveis: Ulisses Penna e Marcos César Gouveia, Januário. Em meados de 1978, tendo a arte postal atingido o ápice com a exposição de trabalhos realizada em Campinas, sob a direção de Hélio Lete e contando com a participação de artistas nacionais e estrangeiros, necessitou-se juntar todo este material – colagens, cartões, carimbadas, poesias – numa única encadernação, embora tenha havido também o número 2, saído em maio de 1980. Não dispondo de recursos próprios nem vínculo publicitário para composição, impressão e demais gastos, a publicação ficou sendo, além de artesanal, eventual.

Rato de Praça - uma publicação bubônica:
Revista cultural, em preto e branco, formato 23 X 19cm, seis páginas. Editado em Salvador, BA. Editores: Kzé, Gaita, Guiba e Valente. A revista tem quadrinhos e poesias.

Repúbrica das Bananas
Revista, mimeografada, trinta e seis páginas, capa em cartolina, feita por alunos do Instituto de Letras da UFBA - Universidade Federal da Bahia. Salvador, BA. O primeiro número saído em 1980, sem data, foi vendido de mão em mão. Tiragem: 500 exemplares. A ironia que se faz notar a partir do “erro” intencional na grafia é a tônica desta revista de poesia.

Revista Dedo Mingo:
Editada por Glauco Mattoso. Formato 44 X 33 cm, capa plastificada, com cerca de vinte páginas, inteiramente datilografada numa máquina Olivetti, tipo paica, só depois xerocada e fotolitada. São Paulo, SP. Saíram dois números, ambos de 1982. Proposta cultural anárquica, ironizando, através de textos e poemas, os usos e costumes sociais. Sobre seu trabalho assim se referiu Carlos Ávila: “Com afinidades e parentescos com o que se convencionou chamar de ́literatura marginal ́, o texto de Glauco é macarrônico, uma geléia geral onde cabe tudo, desde filosofia até antropofagia, passando pela escatologia, mas num filtro próprio que privilegia a sátira acima de qualquer outra coisa.”

Ta-ta-ta Jornal:
Publicação, off-set, grampeada, dezoito páginas, formato 31 X 22cm, Rio de Janeiro, RJ. Diretores: Emanuel Brasil e Jorge Mautner. Ilustração: Deo. Entre os colaboradores constam: Gilberto Gil, Luís Carlos Maciel, Clarice Lispector, Norma Bengell, Jorge Salomão, Isabel Câmara, Alceu Valença, Caetano Veloso, Wally Salomão. O número 1 é de dezembro de 1976. Contém ilustrações, ensaios, poesia, entrevistas, artigos. Revista de contra-cultura.

Verbo Encantado:
Jornal, off-set, mini-tablóide, vinte e quatro páginas. Começou, segundo contsta, do número 17, sem data, circulando aos sábados, como encarte do jornal Tribuna da Bahia.  Bahia e de Sergipe. Redator: Álvaro Guimarães. Editores: Armindo Jorge Bião, Carlos Ribamar e Ribanceira, Luciano Diniz. Equipe: Nêgo, Nízio, Athenodoro Ribeiro e Gumi Tavares. Transas musicais: José Cerqueira Filho e Marco Antônio. Reportagens: Nelson Rocha. Posteirormente tornou-se independente. A partir do número 21 passa a ser edição nacional, em junho de 1972. Rio de Janeiro, RJ. Diretor: Álvaro Guimarães. Redator: Armindo José Bião. Edição nacional: Pinky Wainer, Waly Sailormoon, Reinaldo Jardim. Entre os verboys contam: Jorge Mautner, Torquato Neto, Caetano Veloso, Steve Berg, Carlos Ribas, Jorge Salomão, Oscar Ramos. Contém fotos, artigos, poesia, entrevistas e reportagens. Publicação cultural enfatizando a contracultura.


Nota - O cartaz que ilustra o artigo é da exposição organizada pelo escritor Alexandre Brito, na Câmara Municipal de Porto Alegre: exposição primorosa do acervo do Paco Cac, incansável pesquisador do tema e colecionador. Grata ao Alexandre pelo convite para participar da mesa de debates, onde tive a oportunidade de mostrar minha última publicação - nesta esfera de revistas literárias. Se o leitor tiver curiosidade sobre poesia e futebol, pode fazer o download gratuitamente, aqui mesmo neste blog, e divertir-se colando figurinhas! (nesta página)