28.2.13

Conto de Sandra Santos


arte
Sandra Santos


um conto meu no Livro do Bar do Escritor - Anarquia Brasileira de Letras,
LGE editora:



Perdidos

Os homens jogavam sinuca, na tarde morrida. Era um puxado num casarão de esquina, perdido num rincão, perdido no tempo e no mundo.
O vento eriçava os pelos e adentrava a saia, maroto como correntino. O dono do bar percorria com o olhar o caminho do vento enquanto secava os copos de bebida. A mulher não era das redondezas, ruminava. As mulheres dali eram possantes! Tiravam sustância da terra. Tinham formas arredondadas e marido. Aquela era magrela, como ovelha bichada. Prestando atenção em sua face descarnada e nos olhos úmidos e amendoados, não deixava mesmo de ter semelhança. Mas as pernas eram bem torneadas, os seios em pera, apesar de pequenos.
A mulher sentiu o olhar devassador, virou-se e caminhou para um banco de tábua, lá embaixo dum cinamomo, ao relento. Mas, que fazia a criatura? Por certo queria morrer de frio, com aquele vento e aquela garoa: caída dum vão criado por Deus-Nosso-Senhor entre a tarde e a noite.

Um dos homens, o que pintava de giz o taco da jogatina, enfiou a cara pela janelinha de tramela e chamou! Perguntou se não queria uma gajeta com mortadela. Ela fez que não com um meneio de cabeça e ele retrucou que era de graça. Ela voltou. Comeu, ali mesmo, no balcão do bolicho, à luz do lampião de gás que iluminava a pele murcha, não dos anos, mas da magreza. Não tinha aonde ir. Viajava há dias na boleia de um caminhão, sem destino. O caminhoneiro havia chegado ao destino dele e ela aqui. Não sabia para aonde nem de onde. O homem que lhe pagara o fiambre lhe indicava uma tapera perdida numa ponta de mato, há poucas horas dali, deixando a estrada. Agradeceu a bondade e seguiu o rumo indicado, na noite sem lua.

Era uma picada comprida, cheia de juás. Muitos galhos secos a lhe riscar as pernas. Pensando em se aquecer num pequeno fogo, foi recolhendo gravetos pelo caminho. Ao chegar à casa abandonada, trazia uma braçada de lenha.

Não havia porta. Nem fogão havia. Umas poucas paredes protegiam do vento, junto com o arvoredo. O chão batido e cobertura de santa fé. Um imenso buraco no teto improvisava um planetário - para ver céu e estrela, se houvesse. Mas era uma noite escura. Noite de desgraçados! Ela suspirou, um canto só seu. Ajoelhou-se a principiar o fogo. Uma prateleira, no quarto contíguo, ainda guardava latas com banha e farinha de milho. No dia seguinte cuidaria de ver o que fazer. Agora, era se aquecer e descansar da vida. Pelo menos, por um dia. E adormeceu, com os uivos do graxaim ao longe.

O que sucedeu a seguir embaralhou-se na mente. Reconheceu um deles, o que lhe tinha sido gentil. Os outros tinham todos o mesmo focinho, cheiro de cachaça, mãos imundas, mesmo sofregar dos animais no cio. Não havia o que fazer! O grito entalou na garganta. As pernas paralisaram. Perdeu a noção do tempo, desviou o pensamento para um cadinho de infância feliz, o primeiro namorado e depois, cerrou...

sandra santos

in Bar do Escritor - LGE Editora

Nota: Sandra Santos nasceu em São Luiz Gonzaga e publicou seus primeiros rabiscos aos quinze anos de idade. Cedo percebeu que não tinha talento e abandonou o ofício da escrita. Vez ou outra tem uma recaída e atende o apelo de alguns leitor despretensioso. Vive de rabiscar cores fortes em qualquer tela desavisada ou ensaiar formas chucras no barro das olarias. Faz " à unha" o blog " A Gata por um Fio"!





19.2.13

Arte e Poesia


Monalisa de botão by Jane Perkins


Visitando um museu de botão


Quando a arte e a literatura se encontram: neste caso, o encontro da arte da britânica Jane Perkins com a poesia do brasileiro Alexandre Brito. Releituras de Leonardo da Vinci, Wermeer e Warhol by Jane Perkins ilustradas pelo poema de Alexandre Brito.



Moça com brinco de pérola by Jane Perkins



Marilyn Monroe de botão, by Jane Perkins



Alexandre Brito


o museu do botão

o museu do botão só tem botão

no portão de entrada uma nota:
"por favor, desabotoar a porta"

de fora ninguém imagina como é por dentro
um desafio ao mais astuto pensamento

tem botão de camisa, de saia, de calça
de bolso, de bolsa, de gola, de gala, de alça
botão que disfarça e botão que realça

fixo, elástico, natural, poroso, reciclado
fino, chato, oval, redondo, quadrado
de tudo quanto é estilo e formato

do translúcido diamante fulgurante
ao embaçado caco de vidro opaco
tem o que ver até o cansaço

botão antigo, moderno, romântico, clássico
nobre, discreto, cromado, complexo, compacto
botão de plástico, vime, acrílico, couro e aço

de tecido, de lata, de laca
botão de osso, coco, alpaca
banhado em ouro, cobre, níquel, estanho, prata

o museu do botão é uma graça!

na seção retrô
o botão que imita um botão de rosa
arrasa


18.2.13

Diego Propato













Diego Propato



Cosas de paráclitos, Herménides y Demócritos


En un río se encontraron un dragón y una tortuga, ambos estaban deshidratados. Para llegar a un acuerdo sobre de quién sería el turno, primero tenían que entenderse. Esto era vital. Si bebía el dragón la tortuga moriría de sed esperando que el agua hirviendo en el esplendor de su ebullición vuelva a su temperatura original. En caso contrario fallecería el ser mitológico aguardando los sorbos cuadro por cuadro del pasivo reptil. Hablaban y hablaban pero sus argumentos parecían inverosímiles. El dragón insistía que era su turno ya que la realidad era dinámica y en continuo cambio. La tortuga refutaba señalando que le correspondía beber a ella debido a que la realidad era algo absolutamente estática y fija. El primero argumentó sobre devenir y la transformación incesante, la segunda de lo permanente, del ente que es presencia constante. El dragón divisó que las nubes ya no era las mismas nubes porque de alguna manera el cielo había gravitado en ellas. Entonces reflexionó que aquejado por la sed, él mismo ya no era el ser contemplativo de hacía unos instantes y apelando a sus instintos más sensuales, sin más lanzó una feroz llamarada. La tortuga a través de su rigor racional determinó que con los pensamientos y no con los sentidos podía alcanzar la verdad y mediante el reflejo más espasmódico de toda su vida introdujo sus patas y cabeza dentro de caparazón evitando las llamas. El fuego transformó la tierra en una pantanosa sopa y ambos resbalaron cayendo en su líquido. Si bien podría llegar a ser cierta aquella máxima: “ nadie es el mismo después de bañarse en un río por segunda vez”. La criatura que emergió causó por demás sorpresa. No fue un dinosaurio con caparazón, ni una tortuga escupiendo fuego. Por encima de un laberinto ya vaciado apareció un ornitorrinco conciente y piromaníaco.